
Ramagem caiu nas mãos do ICE nos Estados Unidos, e a fanfic bolsonarista começou na mesma velocidade em que termina toda valentia dessa gente: correndo para rebatizar vexame.
De repente, brotou uma procissão de juristas de Telegram explicando que não houve prisão, só detenção; que não houve escândalo, só burocracia; que não houve cooperação internacional, só uma inocente inconveniência de trânsito. E o grande oráculo da hora, o neto do ditador, apareceu para vender serenidade técnica sobre o caso do aliado assistido pela empresa da qual ele próprio é sócio. Uma aula ambulante de isenção.
O problema é que a realidade tem o péssimo hábito de humilhar a claque. A Reuters informou que Ramagem está sob custódia do ICE e foi cristalina ao dizer que não conseguiu confirmar a versão da infração leve de trânsito nem afastar ligação com o pedido brasileiro de extradição. Já a PF afirmou que a prisão decorreu de cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos. Tradução para os desorientados: a historinha do “foi só uma coisinha migratória, sem relação com o Brasil” saiu de fábrica com defeito.
E a novela piorou para os roteiristas do autoengano. Segundo o Metrópoles, com base em documento do DHS, Ramagem entrou nos EUA com visto B-2 em 11 de setembro de 2025, podia ficar até 10 de março de 2026 e permaneceu no país após o vencimento, ficando sujeito à remoção. Então a tese da pureza persecutória começou a cheirar a visto vencido.
A cereja do bolo é a pose i-moral dessa gente. E o desespero, quando as principais agencias de notícias do mundo informaram a prisão de Ramagem como CONDENADO FORAGIDO, não foram blogs sensacionalistas ou canais pagos, foram AGENCIAS DE NOTÍCIAS. Passaram anos berrando ordem, hierarquia, patriotismo, disciplina, autoridade. Agora descobriram, comovidos, as sutilezas do vocabulário migratório americano, as delicadezas do devido processo e os encantos humanitários da cautela. Quando é com os outros, querem porrete; quando é com os seus, querem semântica.
No fim, ficou uma cena bastante fiel ao bolsonarismo real: muito músculo retórico, muita fantasia de aço, muita testosterona patriótica de auditório e, quando a conta chega, carimbo, custódia, desculpa esfarrapada e neto de ditador distribuindo laudo de inocência pela internet.
Chamam isso de esclarecimento. Eu chamaria de desespero com cara de nota técnica.
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