
Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com Se tem uma coisa que o cidadão brasileiro não pode reclamar é de tédio. A política nacional é uma espécie de comédia stand-up involuntária que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com um elenco que se supera a cada sessão plenária.
A última grande atração da temporada de humor parlamentar aconteceu na Câmara de Curitiba e teve como protagonista a vereadora Delegada Tathiana Guzella (PL). O enredo? Um clássico da literatura política: a arte de tentar passar recibo de intelectual e acabar tropeçando nos próprios cadarços históricos.
O Efeito Bumerangue da Ignorância
Tudo começou com aquele impulso incontrolável de lacrar em cima do adversário. O presidente Lula, num daqueles discursos improvisados que costumam desafiar os livros didáticos, resolveu reescrever o desfecho da Inconfidência Mineira. Segundo a nova cronologia presidencial, quem foi enforcado foi Joaquim Silvério dos Reis — o delator mais famoso da nossa história. Uma gafe feia, digna de puxão de orelha da assessoria.
Salivando pela oportunidade de ouro de ridicularizar o governo federal, a vereadora subiu à tribuna. Peito estufado, tom solene de quem vai dar uma aula de civismo e… plaft!
Em vez de corrigir o deslize lembrando o sacrifício de Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), a parlamentar, num espasmo de convicção invejável, disparou:
”Alguém precisa comunicar (…) que Joaquim Barbosa é que foi enforcado, e não Joaquim Reis…”
Sim, você não leu errado. Joaquim Barbosa. O ex-presidente do STF, relator do Mensalão, que se aposentou em 2014 e goza de plena saúde, foi sumariamente executado em praça pública pela Coroa Portuguesa em 1792, segundo a nova historiografia da Câmara de Curitiba.
O Guia Prático para Políticos Confusos
Como o Canal Língua Solta preza pela utilidade pública e pela saúde mental dos nossos representantes, montamos um pequeno painel didático. É só imprimir e colar no gabinete para evitar o próximo meme:

A Síndrome do Palanque Veloz
O episódio seria apenas uma piada de quinta série se não revelasse o verdadeiro mal que assola o debate público atual: a pressa cega pela lacração. A necessidade de produzir um corte de 15 segundos para o Instagram ou para o TikTok é tão frenética que ninguém mais para cinco segundos para pensar, checar ou, quem sabe, abrir o Google.
A ironia suprema é ver figuras que se colocam como baluartes da moral, da ordem e defensores de uma suposta superioridade cultural, derrapando no básico do básico da história nacional profunda.
Lula errou? Errou feio. Mas a tentativa de correção da vereadora conseguiu a proeza de transformar o erro original em um mero detalhe de rodapé. Afinal, ressuscitar Tiradentes na pele de um ex-ministro do STF vivo é um malabarismo temporal que nem os roteiristas de Hollywood conseguiriam prever.
O julgamento da internet foi rápido e implacável, restando à parlamentar o papel de piada pronta da semana. Fica o aviso para os próximos ocupantes da tribuna: antes de tentar dar um banho de cultura no rival, certifique-se de que você não está prestes a pular de ponta numa piscina vazia. O público agradece a comédia, mas o estômago do eleitor continua embrulhado.
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