
Por Mayka Wogue /canallinguasolta.com Quando a Comarca de Criciúma precisa intervir para obrigar o Facebook a derrubar hordas de ataques racistas contra Pietra Travassos, a Miss Santa Catarina, o tribunal não está apenas aplicando a lei. Ele está assinando o laudo médico de uma sociedade profundamente doente.
A eleição de uma mulher negra como máxima representante da beleza catarinense causou um curto-circuito na mente de quem enxerga o próprio estado não como uma unidade federativa do Brasil, mas como um reduto europeu imaculado, flutuando por engano na América Latina. O ódio destilado nas redes contra Pietra não é “opinião”, é o desespero de uma farsa identitária que racha à menor exposição solar.
Esse esgoto virtual não brota no vácuo. Ele é o sintoma visível de algo muito mais profundo e perigoso que ocorre no subsolo do estado. Não é segredo para as autoridades e pesquisadores que a região concentra o maior número de células neonazistas ativas no país. Essa ferida histórica é tão exposta que já fez o estado carregar na boca dos críticos a incômoda e vergonhosa alcunha de “Santa CataHEICH”. O preconceito contra a Miss, portanto, não é um caso isolado de internet; é o reflexo de um ecossistema que tolera o supremacismo e se choca mais com a diversidade do que com a suástica.
O paradoxo da moralidade local, contudo, é o que torna o cenário verdadeiramente ácido. Enquanto o “cidadão de bem” se descabela nas redes sociais porque uma jovem negra é bonita e coroada, a realidade das vidraças catarinenses desmorona diante de uma gestão pública vergonhosa.
Veja-se o exemplo icônico de Balneário Camboriú. A cidade que se vende para o mundo como a “Dubai Brasileira”, ostentando metros quadrados astronômicos e luxo vertical, transformou sua praia central em uma metáfora perfeita do estado: uma fachada reluzente que esconde a lama. Entre a especulação imobiliária predatória e o desvio de verbas, faltou investimento em saneamento básico estrutural.
O resultado? Uma orla que perdeu o sol, engolida pelas sombras dos espigões gigantescos, e um mar que frequentemente amarga bandeiras de impróprio para banho devido ao despejo crônico de esgoto. O morador que exige “pureza étnica” na passarela do concurso de beleza é o mesmo que tolera nadar em dejetos biológicos, desde que o apartamento de luxo continue valorizando.
O padrão de exigência e retidão que cobram de Pietra passa longe na hora de auditar as contas públicas da região.
Santa Catarina conseguiu a proeza de registrar cerca de 10% de seus prefeitos presos em desdobramentos de operações contra a corrupção (como a Operação Mensageiro). O crime de colarinho branco, o desvio de dinheiro do lixo e a fraude de contratos públicos parecem não ferir a sensível estética da elite local.
A seletividade da indignação ganha contornos de barbárie quando olhamos para a violência real que brota desse mesmo caldo de intolerância. Recentemente, o país assistiu perplexo ao episódio do pai de uma criança autista, covardemente espancado por comungantes e pastores em Blumenau ao ousar reclamar do barulho excessivo de um templo religioso. A suposta “terra da ordem” revela sua face mais violenta no avesso da fé: agride-se em nome de Deus, discrimina-se em nome da tradição.
Para fechar o mosaico da hipocrisia, a bancada política que frequentemente discursa sobre “valores da família” e “combate ao crime” vê seus próprios pares e deputados sob a mira de investigações que apontam envolvimento com o estrume do narcotráfico e lavagem de dinheiro. No teatro de aparências local, o tráfico internacional que corta os complexos portuários é tolerado nos bastidores do poder, mas a melanina de uma Miss no topo do pódio é considerada uma “afronta” inaceitável.
A sentença que exige os dados cadastrais dos racistas virtuais é pedagógica, mas o remédio judicial é paliativo. O problema de Santa Catarina nunca foi a cor de Pietra Travassos; é o espelho que ela segura diante de um estado que se jacta de uma superioridade moral fictícia enquanto afunda na lama da corrupção, do crime organizado, do esgoto a céu aberto e da violência covarde
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