
A sala de aula e a literatura caminham lado a lado em Castro. Histórias nascidas da rotina com os alunos já ganharam o mundo, encantando crianças dentro e fora do município.
Por Mayka Wogue Carneiro Rodrigues (Jornalista, editora-chefe do Canal Língua Solta e autora de 5 livros lançados)
Dar aula é a profissão; escrever é a vocação. Para duas professoras da rede municipal de ensino de Castro, essa combinação não apenas complementa a rotina pedagógica, mas transforma a realidade dos alunos. Natalya de Oliveira e Roseneia de Carvalho, veteranas do magistério público local, descobriram na convivência diária com as crianças a inspiração exata para criar histórias que ensinam, encantam e, acima de tudo, representam.
Como jornalista e também escritora — com o orgulho de já ter colocado cinco livros no mundo —, sei bem como a escrita tem o poder de eternizar realidades e transformar vidas. É com essa mesma paixão pelas letras que apresentamos as trajetórias e as obras dessas educadoras que estão levando o nome de Castro para o cenário literário nacional e internacional.
Fios de Dandara: Identidade, representatividade e ancestralidade na escola
Com uma jornada de 40 horas semanais dedicadas ao magistério, Natalya de Oliveira encontra no silêncio das noites, a partir das 19h, o momento ideal para dar vida às suas palavras. Escritora desde os 13 anos, Natalya tem uma trajetória precoce: aos 19, foi descoberta na internet pela Editora Stary, de Singapura, onde atuou com exclusividade até 2023. Hoje, em uma nova fase da carreira, ela uniu o amor pelos livros à paixão pelas salas de aula.
”Sendo professora e amando de todo o meu coração a minha profissão, eu sentia a necessidade de colocar essa paixão também na literatura”, destaca Natalya.
O resultado dessa entrega é “Fios de Dandara”, livro infantil que acompanha uma garota de sete anos criada em um lar que celebra sua beleza, mas que nota a falta dessa mesma representatividade no mundo exterior — na televisão, nas lojas e nas bonecas. A obra é inspirada nas próprias memórias da autora e sua relação com os cabelos cacheados na infância.
Impacto real na sala de aula
Mais do que um projeto de ficção, a obra — que integra a coletânea “Celebrando as Identidades” — virou ferramenta pedagógica prática. Ao aplicar o livro como sequência didática em suas turmas de 2º ano, utilizando bonecas de diferentes etnias fornecidas pela Secretaria Municipal de Educação, Natalya testemunhou o poder da representatividade.
“Após a contação de histórias, ouvi de um aluno negro: ‘Professora, eu sou negro igual você!’, com um sentimento de felicidade e descoberta. Os alunos passaram a se representar nos desenhos com o próprio tom de pele”, relata a professora, emocionada. O livro também cumpre um papel fundamental no respaldo à Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Rumo à Bienal: Natalya agora foca em uma meta clara: vender 200 exemplares para garantir seu espaço na Bienal do Livro. Com mais de 50 cópias vendidas, ela enxerga o momento como uma vitória coletiva: “Estarão comigo as minhas raízes, os meus ancestrais e a história de tantas meninas pretas que cresceram sem ver sua beleza celebrada”.
Onde encontrar: Os exemplares estão disponíveis diretamente com a autora ou pelas plataformas da Livraria Uiclap e Amazon. Novos títulos, como o segundo volume de Dandara e “Antes do Gol: Meninas Nasceram para Vencer!”, já estão em produção.
O Presente do Zé Jacaré: A magia das cores nascida da ludicidade
Há 21 anos dedicados à educação, Roseneia de Carvalho atua hoje com as turmas de Pré I no Cmei Nosso Lar. Seu encanto pelas letras começou cedo, aos nove anos, ao ler “A Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, em uma cartilha escolar. Aos 14, já escrevia poesias, mas foi o chão da sala de aula que a conduziu naturalmente para o universo infantil.
O carismático personagem Zé Jacaré nasceu de forma despretensiosa, durante uma dinâmica de imitação e uma música sobre alimentação saudável criada para animar os alunos.
”Eu nunca pensei que fosse virar um livro”, confessa Roseneia com simplicidade.
Lançado em maio de 2025, “O Presente do Zé Jacaré” narra a história do réptil que ganha uma aquarela de seu pai. Ao descobrir que a mistura de cores primárias gera novos tons, o personagem passa a colorir e transformar o seu próprio mundo. “É uma história muito fofa, onde a criança aprende uma mágica muito legal misturando as cores e descobre que pode criar coisas incríveis”, descreve a autora.
A surpresa dos pequenos
A recepção dos alunos não poderia ter sido mais pura. Ao introduzir a obra no Cmei e revelar quem era a mente por trás da história, a sala foi tomada pelo entusiasmo. “Um falava para o outro: ‘É a prof!’”, relembra Roseneia, sorrindo.
Para a educadora, a matéria-prima de seu trabalho — tanto na escrita quanto nas aulas — vem diretamente da vivência com a infância. “A inocência, o jeito delas de ver as coisas de forma diferente, a alegria que contagia… essa é a essência do amor”, define. A expectativa para o livro é que ele continue aguçando a imaginação e mostrando aos pequenos leitores que eles também são capazes de criar grandes coisas.
Apoie a Literatura Local
Iniciativas como as de Natalya e Roseneia provam que a educação pública de Castro é um celeiro de talentos, sensibilidade e transformação social. Valorizar o livro nacional e local é incentivar o futuro de nossas crianças.
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