O custo da incompetência logística do Ministério da Saúde recai sobre o bolso do cidadão invisível

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Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com Há meses, o Canal Língua Solta vem acompanhando de perto a via-crúcis de uma senhora que trava uma batalha diária, não apenas contra as dores crônicas de sua condição de saúde, mas contra a engrenagem fria e falha da burocracia estatal. Ela depende do uso contínuo de Leflunomida 20mg, um medicamento imunossupressor e antirreumático vital para o tratamento da artrite reumatoide ativa.
​Para quem não conhece a realidade da doença, a Leflunomida não é um paliativo para dor de cabeça; ela atua bloqueando a proliferação das células que atacam as próprias juntas do paciente. Sem o comprimido diário, o sistema imunológico volta a destruir as articulações, gerando inflamações severas, perda de mobilidade e sequelas irreversíveis. Os primeiros resultados demoram de 4 a 6 semanas para aparecer, mas bastam poucos dias de interrupção para que o retrocesso seja devastador.
O medicamento faz parte do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) do SUS — os chamados remédios de alto custo. O direito ao recebimento é garantido por lei. No entanto, desde o início do ano, a resposta que os pacientes recebem no Serviço de Assistência Especializada (SAE) é a mesma: está em falta. De nada adianta um prédio novo e moderno para o SAE, uma estrutura física impecável aos olhos do público, se as prateleiras continuam vazias e não há medicação disponível desde dezembro.
​A conta que não fecha para o trabalhador
​Segundo informações obtidas pelo nosso canal, os fornecedores do Ministério da Saúde não estão atendendo à demanda. E aqui é preciso fazer justiça e apontar o real culpado: não é uma falha dos municípios e nem dos governos estaduais. É um apagão logístico e de planejamento do Ministério da Saúde.
​Enquanto Brasília falha em assinar contratos ou coordenar a distribuição, quem paga a conta na ponta? O cidadão de baixa renda. Uma mísera cartela com 20 comprimidos de Leflunomida custa a bagatela de R$ 770,00. Detalhe: o mês tem 30 dias. A matemática da sobrevivência se torna impossível para famílias que vivem com um salário mínimo.
​Para não verem seus entes queridos travados em cima de uma cama pelo avanço da artrite, famílias estão recorrendo à generosidade de amigos, vizinhos e apelando para vaquinhas virtuais nas redes sociais. A solidariedade do povo brasileiro tem coberto a incompetência do Estado, mas isso não é sustentável e, acima de tudo, não é justo. Saúde é direito, não é esmola.

O que o cidadão pode fazer diante do desabastecimento?
​O Canal Língua Solta não vai apenas denunciar; nós queremos municiar a população com informação útil para combater esse descaso. Se você ou algum familiar está sem receber a Leflunomida ou outro medicamento de alto custo pelo SUS, existem caminhos legais para exigir o cumprimento do seu direito:
​Exija a Negativa por Escrito: Ao ir ao posto ou SAE e ouvir que o remédio está em falta, exija um documento oficial carimbado que comprove a ausência do estoque. Esse papel é a sua maior prova.
Acione a Defensoria Pública (DPU ou DPE): Com a negativa e o laudo médico em mãos, a Defensoria Pública pode mover uma Ação de Obrigação de Fazer. A Justiça pode determinar que o Estado compre o medicamento na farmácia privada mais próxima para fornecer ao paciente.
​Pedido de Bloqueio de Verbas: Em casos urgentes, o juiz tem o poder de bloquear o dinheiro direto das contas do Estado ou da União para garantir a compra imediata do remédio.
​Formalize na Ouvidoria: Ligue no Disque Saúde (136) e registre a reclamação. O Ministério Público Federal (MPF) também pode ser acionado de forma online para investigar o desabastecimento geral por parte do Ministério da Saúde.
​A pergunta que fica no ar
​Até quando a dignidade humana será tratada como número de planilha em Brasília? Até quando mães, avós e trabalhadores terão que passar pela humilhação de pedir dinheiro na internet para comprar um remédio que o Estado tem a obrigação constitucional de fornecer?
​O Canal Língua Solta continuará cobrando, fiscalizando e acompanhando o caso dessa senhora e de tantos outros brasileiros invisíveis. Não aceitaremos o silêncio como resposta.
​Deixe seu comentário abaixo: Você também está enfrentando a falta de medicamentos no SUS na sua cidade? Conte sua história para nós.

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