​A Manivela do Medo, a Bolsa dos Pobres e o Banquete dos Bilhões, a elite que prefere reinar sobre a miséria a prosperar na igualdade.

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Por Mayka Wogue / Canal Língua solta Há mais de um século, o Brasil assiste ao mesmo espetáculo de ventriloquismo político e empresarial. Muda o figurino, moderniza-se o jargão, mas o roteiro permanece rigorosamente o mesmo. Sempre que o andar de baixo ameaça dar um passo à frente, os inquilinos da cobertura correm para a sacada com o mesmo megafone desgastado, profetizando o fim do mundo. “A economia não aguenta”, “o país vai quebrar”, “vamos espantar o capital”.
​Essa ladainha apocalíptica não é uma análise técnica; é uma tecnologia social de adestramento. É o chicote psicológico usado por uma elite que nunca engoliu a ideia de que o trabalhador é um cidadão, e não um custo de produção a ser espremido até o bagaço.
​Em 1888, diziam que a lavoura de café viraria pó sem o braço escravizado. A abolição veio, o café continuou brotando da terra, mas a vingança oligárquica foi imediata: derrubaram o Império para fundar uma República de compadragem. Em 1891, quando se tentou proibir o absurdo de crianças de doze anos perderem os dedos em engrenagens fabris, industriais choraram miséria. Décadas mais tarde, o salário mínimo e as férias remuneradas foram recebidos como o atestado de óbito da indústria. Em 1962, o décimo terceiro salário foi tratado como uma bomba-relógio.
​O país nunca quebrou. O que aconteceu foi o óbvio: o mercado consumidor expandiu, o comércio lucrou e a roda da riqueza girou — para o desespero de quem prefere reinar sobre a miséria a prosperar na igualdade.
​Hoje, essa mesma hipocrisia ganha contornos numéricos escandalosos no Orçamento da União. O debate público é inundado por uma gritaria fiscalista impiedosa contra os programas sociais. Apontam o dedo para o Bolsa Família, que custa cerca de R$ 158 bilhões por ano para garantir o prato de comida e a sobrevivência básica de quase 50 milhões de brasileiros em extrema vulnerabilidade. Para os donos do poder, esses bilhões que compram arroz e feijão no mercadinho da esquina são tratados como um “peso insustentável”, um “rombo”, uma “ameaça à meta fiscal”.
​No entanto, há um silêncio sepulcral e cúmplice quando a contabilidade se volta para o topo da pirâmide. Enquanto o país chora as migalhas distribuídas na base, o Estado brasileiro opera um verdadeiro banquete de privilégios no topo, abrindo mão de arrecadar mais de R$ 540 bilhões anuais em renúncias fiscais — os chamados “gastos tributários”.
​É aqui que o cinismo atinge o seu ápice. O mesmo agronegócio que financia discursos raivosos contra a intervenção do Estado na economia corre de pires na mão para os palácios de Brasília todo ano para abocanhar os valores exorbitantes do Plano Safra — que ultrapassou a marca histórica de R$ 400 bilhões em linhas de crédito subsidiadas. Dinheiro público, carimbado com juros camaradas pagos pelo contribuinte, para financiar quem já fatura em dólar. Somam-se a esse banquete de crédito os R$ 158 bilhões em isenções fiscais que o agro recebe diretamente e as dezenas de bilhões de reais em incentivos que a velha indústria arranca do governo sob o pretexto de “manter empregos”.
​Para que essa engrenagem de privilégios continue girando sem sobressaltos, os operadores políticos cobram caro. Enquanto exigem “sacrifício” do trabalhador comum — que cumpre jornadas exaustivas de 44 horas semanais para receber um salário mínimo —, deputados e senadores encastelados no Congresso Nacional desfrutam de uma realidade paralela. Com uma escala de trabalho oficial de apenas três dias por semana (terça a quinta) e recessos parlamentares duas vezes ao ano, os congressistas brasileiros custam uma fortuna absurda.
​Cada parlamentar recebe salários na casa dos R$ 44 mil, mas a cifra real é inflada por uma casta imoral de auxílios penduricalhos: auxílio-moradia, verba de gabinete de mais de R$ 120 milhões por ano por bancada, verba cotão para passagens aéreas e combustíveis, além de planos de saúde vitalícios e vitaliciados. O Congresso brasileiro ostenta o título de um dos legislativos mais caros do planeta, consumindo bilhões de reais anuais para que seus membros façam discursos inflamados sobre austeridade fiscal na tribuna, enquanto esfolam o orçamento público nos bastidores.
​Quando o Estado gasta para salvar a vida de uma criança faminta, o mercado chama de “gasto assistencialista”. Quando o Estado injeta R$ 400 bilhões para subsidiar latifundiários e banca a vida de nababo de políticos com jornadas mínimas e auxílios máximos, o mercado silencia, tratando o escândalo como “custo institucional”.
​O que os políticos fisiológicos e os industriais de mentalidade colonial evitam não é a ruína econômica; é o risco da perda de controle. Para essa casta, a intervenção do Estado só é legítima se for para socializar seus prejuízos, privatizar seus lucros e manter as mordomias do poder.
​Essa elite do atraso padece de uma cegueira histórica incurável. Não percebem que o maior entrave à produtividade brasileira não é o custo do trabalho ou o combate à fome, mas a sua própria e crônica dependência da teta estatal travestida de discurso liberal.
​O Brasil que produz está cansado de ser refém do Brasil que especula e daqueles que legislam em causa própria. Financiar o progresso social e a dignidade humana não é caridade, é o pré-requisito para existir uma nação. Enquanto nossa classe política e nosso baronato industrial continuarem apontando o deficit na mesa do pobre e escondendo o superavit no bolso do rico, o país continuará paralisado pela covardia de seus governantes. O verdadeiro perigo para o Brasil não é o avanço; é a insistência de quem mantém a mão firme na manivela do atraso.

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