
Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com O mês de junho traz consigo uma atmosfera inevitável de romance, impulsionada pelas vitrines decoradas, pelas campanhas publicitárias e pelo fluxo incessante de declarações nas redes sociais. Para o jornalismo que busca ir além da superfície dos fatos, o Dia dos Namorados convida a uma reflexão muito mais profunda do que a escolha do presente ideal. É preciso olhar para o retrovisor da história, compreender como o mercado moldou nossos ritos afetivos e, acima de tudo, debater a saúde emocional de uma sociedade que muitas vezes confunde posse com parceria.
Celebrar o afeto exige, antes de tudo, compreender a sua pluralidade e reconhecer que, enquanto houver vida, haverá capacidade de recomeçar e amar.
1. A Dupla Face da História: O Martírio Romano vs. O Marketing Brasileiro
Para entender o Dia dos Namorados, é preciso dividir a data em duas narrativas distintas: a internacional, carregada de simbolismo e rebeldia, e a nacional, nascida de uma estratégia puramente comercial.
O Dia de São Valentim (O Contexto Internacional)
No restante do mundo, a celebração ocorre em 14 de fevereiro, em homenagem a São Valentim. No século III d.C., o imperador romano Cláudio II proibiu os casamentos por acreditar que homens solteiros e sem amarras familiares se alistavam mais e lutavam melhor em suas frentes de guerra.
Valentim, um bispo cristão, considerou a lei injusta e passou a celebrar matrimônios clandestinamente, defendendo o direito das pessoas de unirem suas vidas. Descoberto pelas forças imperiais, foi preso, torturado e decapitado em 14 de fevereiro de 269. A data, portanto, surge na Europa e nas Américas como o símbolo do sacrifício e da resistência em nome da liberdade de amar.
O 12 de Junho (A Engenharia Comercial Brasileira)
No Brasil, a história carece de qualquer misticismo. A data foi criada em 1949 pelo publicitário João Doria (pai do ex-governador de São Paulo). Contratado pela agência Standart Propaganda para alavancar as vendas das Lojas Clipper — que enfrentavam uma forte queda no faturamento durante o mês de junho —, ele instituiu o Dia dos Namorados.
A escolha do dia 12 de junho foi uma jogada estratégica dupla: além de aquecer o comércio em um período tradicionalmente frio para o varejo, o dia antecede as celebrações de Santo Antônio, o tradicional “santo casamenteiro” da cultura luso-brasileira. O slogan que inaugurou a campanha não deixava margem para dúvidas sobre sua natureza:
”Não é só com beijos que se prova o amor.”
O sucesso foi imediato. O comércio paulistano recuperou o fôlego, a data se expandiu para todo o território nacional e o Brasil ganhou um novo feriado comercial fixo em seu calendário.
2. A Banalização Contemporânea e o “Amor de Vitrine”
Setenta e sete anos após a criação da data no Brasil, a engrenagem comercial ganhou um aliado poderoso e, por vezes, perigoso: as redes sociais. O consumo, que antes se limitava à compra de um bem material, passou a englobar a espetacularização da própria vida íntima.
A contemporaneidade flerta constantemente com a coisificação do afeto. O valor e a estabilidade de um relacionamento passaram a ser erroneamente medidos pelo preço do presente recebido, pelo requinte do restaurante escolhido ou pelo impacto visual das fotos publicadas no feed do Instagram.
Essa necessidade de validação social cria o fenômeno do “amor de vitrine”. Casais constroem narrativas digitais impecáveis, encenando uma cumplicidade inexistente para camuflar crises severas, distanciamentos emocionais e, em casos mais graves, abusos cotidianos. A urgência em “parecer amado” para a aprovação dos outros acaba sufocando a verdade do convívio real, transformando o sentimento em um produto de exportação social.

3. As Inúmeras Formas de Amar: O Afeto não Escolhe Idade nem Padrão
Um dos maiores equívocos da banalização comercial é tentar enquadrar o amor em uma receita única: a do jovem casal heteronormativo de comercial de margarina. O amor real ignora cartilhas e se manifesta de formas infinitas.
O Amor Romântico Plural: Não há idade, gênero ou formato definitivo para a paixão. O afeto se reconstrói na juventude, na maturidade e, com extrema beleza, na terceira idade.
A Maturidade Afetiva: Idosos que redescobrem o companheirismo, que se permitem apaixonar novamente após a viuvez ou o divórcio, provam que o coração não se aposenta. O amor na longevidade traz a calmaria da cumplicidade, o diálogo livre de ansiedades juvenis e o prazer do cuidado mútuo.
O Amor Além do Romance: A celebração da vida também passa pelo amor fraternal, pelas amizades que se tornam esteios familiares, pelo amor de pais e filhos, e pela dedicação a causas comunitárias.
A Máxima da Existência: Enquanto há vida, há tempo para o afeto. Estar vivo é manter aberta a capacidade de se conectar com o outro, de trocar experiências e de construir pontes, independentemente de quantas cicatrizes o passado tenha deixado.
4. O Amor-Próprio como Escudo contra Relações Tóxicas
A pressão social e cultural para estar em um relacionamento a qualquer custo funciona, muitas vezes, como uma armadilha. O medo da solidão e a carência afetiva empurram indivíduos para dinâmicas destrutivas, onde a identidade é paulatinamente apagada.
Os relacionamentos tóxicos raramente dão sinais explícitos no início. Eles se instalam por meio de microviolências disfarçadas de zelo: o controle das roupas, o monitoramento das mensagens de celular, o afastamento gradual da vítima de seus amigos e familiares, e a invalidação sistemática de suas opiniões e sentimentos (processo conhecido como gaslighting).
O único antídoto eficaz contra a submissão a esses cenários é o desenvolvimento do amor-próprio. Amar a si mesmo não significa isolamento ou egoísmo; significa estabelecer a linha de base do respeito que você exige do mundo. O Resgate do Afeto Real
O Dia dos Namorados, portanto, não precisa ser abolido, mas urgentemente ressignificado. Quando despimos a data das embalagens de presente, dos filtros de curtidas e das amarras comerciais, o que resta é a essência daquilo que nos torna humanos: a nossa capacidade de conexão.
Celebrar o amor não deve ser um ato de performance para o olhar estrangeiro das redes sociais, mas um exercício diário de presença, escuta e respeito mútuo. Que saibamos aplaudir o amor em todas as suas linhas de tempo — seja ele o primeiro romance da juventude, o reencontro maduro na terceira idade, ou os laços profundos de amizade e família.
Acima de tudo, que a nossa primeira e mais longa história de amor seja sempre com o espelho. Afinal, só quem reconhece o próprio valor é capaz de transbordar em uma parceria legítima, livre de posses e rica em liberdade. Em tempos de vitrines tão brilhantes, que o nosso maior luxo seja a audácia de viver um afeto real.
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