
Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com I O bairro do Tronco virou o cenário de um filme de horror sanitário que se repete a cada céu nublado. Bastam as primeiras gotas de chuva para que o drama comece, mas vamos deixar a romantização de lado: o que acontece ali não é um “imprevisto da natureza”, é o resultado de uma combinação explosiva entre a canalhice de uns, a incompetência crônica de outros e o descaso de uma empresa que agora responde primeiro aos acionistas e depois ao cidadão.
De um lado, a ignorância vizinha; do outro, o silêncio ensurdecedor do Estado; e, no topo de tudo, a eficiência de fachada de uma SANEPAR privada. E, no meio disso, o morador boiando em água contaminada e dejetos.
A Clandestinidade dos Espertos: O Esgoto do Vizinho na Sua Porta
Comecemos pelo esgoto da própria casa — literalmente. É inadmissível que indivíduos que se dizem “cidadãos” tenham a audácia de ligar a rede de esgoto de suas propriedades diretamente na galeria de águas pluviais.
A conta é simples, embora falte neurônio para quem comete o crime: galeria de chuva serve para escoar água da chuva; rede de esgoto serve para dejetos.
Quando o morador “esperto” faz essa gambiarra criminosa para economizar ou por pura preguiça, ele sabe exatamente o que está fazendo. Ele está entupindo o sistema e condenando a rua inteira ao colapso. Quando a tempestade aperta e a merda — com o perdão da palavra literal — vem à tona, a culpa não é apenas de São Pedro. É do vizinho que achou que o espaço público era a extensão do seu vaso sanitário. É egoísmo puro, mascarado de conveniência.
O Lucro no Bolso, o Dejeto na Rua: A Nova Realidade da SANEPAR
Mas se a irresponsabilidade de parte dos moradores revolta, o papel da SANEPAR pós-privatização gera indignação em outra escala. Vendida sob a velha promessa liberal de que “a iniciativa privada traria eficiência e investimentos”, a companhia entregou ao Tronco justamente o oposto: tarifas mais altas, atendimento precarizado e um sumiço estratégico na hora da crise.
Com a privatização, a lógica mudou: a prioridade virou o corte de custos para maximizar dividendos, e o saneamento básico — que deveria ser um direito humano — passou a ser tratado puramente como linha de balanço financeiro. O resultado prático dessa “eficiência” do mercado está nas ruas do bairro:
Terceirização e Precarização: Equipes técnicas reduzidas e mal equipadas que demoram dias para responder a chamados urgentes.
Jogo de Empurra: A SANEPAR lava as mãos alegando que a galeria de águas pluviais é responsabilidade da prefeitura, ignorando olimpicamente que o que está entupindo a galeria e vazando na rua é o esgoto que ela deveria recolher e tratar.
Apagão de Investimentos: A rede de escoamento do bairro é antiga e claramente não comporta mais a demanda, mas investir em expansão e modernização de periferia não dá o mesmo retorno imediato que agrada ao mercado financeiro. Ainda mais quando têm de doar milhões para pagar dividas do atual governador, como mostra recentes áudios vazados.
O Apagão dos Órgãos Responsáveis: A Arte de Não Fazer Nada
Enquanto a SANEPAR lucra com a desgraça alheia, o poder público e as agências reguladoras parecem sofrer de uma cegueira seletiva conveniente. Os moradores atingidos já gritaram, protocolaram, imploraram e alertaram. A resposta? O mais absoluto e cínico silêncio.
Onde está a fiscalização da prefeitura para autuar as ligações clandestinas? Onde está a agência reguladora para multar a SANEPAR pelo serviço porco e pela omissão?
Fiscalizar? Dá muito trabalho.
Cobrar a concessionária privatizada? Exige coragem política que ninguém ali tem.
A omissão estatal, neste caso, beira a cumplicidade. Ao abandonarem a manutenção e se recusarem a peitar a nova gestão da SANEPAR, as autoridades assinam embaixo do crime ambiental e humanitário que se instalou no Tronco. É uma gestão pública que assiste, de gabinete seco e ar-condicionado ligado, a população submergir em lama e contaminação.
Um Bairro Condenado Pela Falta de Civismo, de Governo e de Respeito
O resultado dessa parceria nefasta entre o crime doméstico, a paralisia pública e a ganância corporativa é o que se vê nas ruas do Tronco: alagamentos sistemáticos que destroem móveis, inundações de água podre repletas de vetores de doenças, e um prejuízo financeiro e psicológico violento para quem trabalha e paga suas contas em dia.
O bairro do Tronco não precisa de mais vistorias protocolares ou de “notas de esclarecimento” emitidas por assessorias de imprensa blindadas. O bairro precisa de choque de ordem e de vergonha na cara.
É preciso lacrar as ligações clandestinas, multar pesadamente os porcos que jogam seus dejetos na galeria de chuva e arrancar a SANEPAR do conforto do seu balancete bilionário para que ela limpe a sujeira que está sendo paga para gerenciar. Até que isso aconteça, o Tronco continuará sendo o reflexo perfeito de um sistema que adoece pela falta de civismo de seu povo, pela incompetência de seus governantes e pelo lucro desumano de suas empresas.
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