Santa CataHEICH e o Evangelho de “Deus, Pátria e Quadrilha”: O Templo do Silêncio Cúmplice, a “Moral” que Espanca e o Estado que Prende o Ouvido

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Por Mayka Wogue / Canal Língua Solta Há um método cirúrgico na barbárie que governa Santa Catarina. O cidadão covardemente nocauteado em Balneário Camboriú por um Guarda Municipal — de folga no corpo, mas em pleno exercício do milicianismo mental — não é um acidente de percurso. É o desfecho previsível e carimbado de um estado que terceirizou sua segurança para o fundamentalismo e sua ética eleitoral para o balcão de negócios do crime organizado.
​A vítima, pai de uma criança autista em sofrimento, cometeu o erro crasso de acreditar nas instituições. Registrou uma, duas, dez, dezessete vezes o barulho ensurdecedor que torturava seu filho. Dezessete Boletins de Ocorrência. Dezessete pedaços de papel que hoje servem apenas para atestar a prevaricação insolente e a cumplicidade covarde da Polícia Civil e do Ministério Público catarinense.
​Para que servem os batalhões reluzentes, as delegacias com discursos de tolerância zero e os gabinetes climatizados do MP se a lei do silêncio só é ágil para proteger o barulho dos poderosos? A inércia dessas autoridades diante de uma dúzia e meia de denúncias não é incompetência; é escolha política. É o salvo-conduto institucional para que essas corporações da fé operem totalmente à margem do Código Penal. Sob o biombo de uma “liberdade de culto” que se confunde com o direito feudal de torturar os tímpanos da vizinhança, o que se esconde, na verdade, é o privilégio de mercado de franquias espirituais intocáveis. Se o cidadão precisa colocar o próprio corpo e o celular na linha de frente porque o Estado se recusa a fechar as portas de um estabelecimento infrator, a farsa institucional está consumada.
​O pano de fundo desse soco na cara da cidadania é a esquizofrenia puritana de uma sociedade que se vende como o “supremo bastião da civilidade, do trabalho e da ordem”. O mesmo extrato social que espuma ódio nas redes sociais em defesa da “família e dos bons costumes” assistiu impávido a um homem ser desfigurado a murros e, num ato de puro instinto de alcateia, recolheu o agressor fardado para dentro do templo para protegê-lo da luz do sol. É a moral da conveniência, parida dentro de templos que há muito deixaram de ser altares de transcendência para se transformarem em autênticos balcões de negócios.
​Hoje, essas estruturas funcionam como empresas predatórias de arrecadação de dízimos, lavanderias de capital político e usinas de blindagem jurídica. Vendem a salvação no atacado enquanto lucram no varejo com a perturbação do sossego alheio, operando com a agressividade de multinacionais imunes a impostos e a leis ambientais. Se Jesus é o caminho, esses templos são o pedágio, ou ribanceira. A violência na calçada é o braço armado desse comércio: o carrasco espanca para defender o faturamento e o monopólio do barulho, santificado pelo silêncio das autoridades.
​Essa podridão ética transborda direto das urnas para as páginas policiais. O eleitorado catarinense que se julga moralmente superior ao resto do país ostenta a vergonhosa marca de ter mais de 10% de seus prefeitos presos em operações consecutivas por corrupção, fraudes e lavagem de dinheiro. O cinismo é tão profundo que o mesmo cidadão que exige “mão firme” contra o crime é o que chancela o banditismo de colarinho branco e assiste, sem piscar, a escândalos de parlamentares e gabinetes legislativos umbilicalmente ligados a pilotos e esquemas do narcotráfico internacional. Adoram discursar contra as drogas e a corrupção, mas elegem a quadrilha que opera o esquema; aplaudem a farda, desde que ela esteja batendo em um pai desesperado e protegendo o coronel da fé local.
​É nesse mesmo caldo de delírio e arrogância que prosperam figuras como a deputada Júlia Zanatta, que volta e meia flerta com a retórica separatista de isolar o estado do restante da federação. Embora a pregação do separatismo configure um atentado direto contra a Constituição e a unidade nacional, diante de um cenário de colapso moral tão evidente, a ideia de uma separação deixa de parecer uma ameaça jurídica para soar como um verdadeiro livramento para o restante do Brasil. Que fiquem isolados com suas milícias, suas filiais mercadológicas da fé, seus prefeitos presidiários e seu falso purismo.
​O que aconteceu em Balneário Camboriú não foi um “fato isolado”, como diz a nota cínica da Igreja Assembleia de Deus Missão Avivalista. Foi a materialização perfeita do ecossistema político e policial vigente no estado: corporações religiosas que ignoram leis com a certeza da impunidade, forças de segurança que agem como leões de chácara de CNPJs sagrados, políticos criminosos que usam o rebanho como moeda de troca, e promotores públicos que preferem o conforto do silêncio burocrático ao enfrentamento do coronelismo da fé e do capital.
​O sangue na calçada da Vila Real está na conta do guarda que bateu, mas a caneta que assinou a autorização para o espancamento pertence à omissão criminosa da Polícia, do Ministério Público e de uma sociedade hipócrita que escolheu a dedo os mercadores e os bandidos que a governam.

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