
Por: Mayka Wogue / Canal Língua Solta
A televisão brasileira parece ter descoberto uma nova “galinha dos ovos de ouro”, mas o preço cobrado pode ser a falência da diversidade cultural. Recentemente, o público e a crítica especializada — incluindo a própria “vênus platinada” através de seus colunistas — notaram um fenômeno sufocante: a onipresença do sertanejo em quase todos os horários da grade de entretenimento. Do É de Casa ao Altas Horas, o que vemos não é apenas uma escolha estética, mas uma estratégia de mercado agressiva que flerta perigosamente com a alienação em massa.
O Triunfo da Conveniência sobre a Cultura
A aposta no movimento “agro” não é por acaso. Trata-se de um pragmatismo comercial desenhado para atrair o capital do campo e reconectar a emissora a um público conservador, o mesmo que mesmo sem desgrudar os olhos gritava “GLOBOLIXO”. O problema, contudo, surge quando a curadoria artística é substituída por algoritmos.
Hoje, o que ouvimos com frequência são composições de “pobreza dialética”, letras que não exigem esforço intelectual para serem decoradas e melodias produzidas sob o auxílio de Inteligências Artificiais e correções vocais que eliminam qualquer traço de humanidade na voz. É o “hit chiclete” como produto de prateleira: fácil de consumir, mas sem valor nutricional para a alma.
A História é um Filtro Implacável
Para quem se sente sufocado pela saturação atual, um alento: a história da música brasileira é mestre em separar o que é fenômeno midiático do que é ícone cultural. Já vimos esse filme antes. Ritmos que dominaram as rádios e TVs de forma absoluta acabaram por se tornar apenas notas de rodapé ou nichos sazonais:
A Lambada (Anos 80/90): De explosão mundial a uma lembrança nostálgica.
O Pagode Romântico (Anos 90): Dezenas de grupos surgiram; poucos, como o Raça Negra, provaram ser atemporais.
O Axé Music (Anos 2000): Saturou o mercado até se retrair para os limites do Carnaval.
As Duplas Sertanejas de Estúdio: Muitas que eram onipresentes há dez anos hoje não lotam um ginásio.
Onde Estão os Gigantes?
Enquanto a “overdose” atual nos entrega músicas descartáveis, a verdadeira identidade brasileira resiste em ícones que não precisaram de fórmulas matemáticas para se tornarem imortais. Falamos da densidade de Elis Regina, do violão de Baden Powell, da poesia suburbana de Cartola, da genialidade de Tom Jobim e da voz visceral de Milton Nascimento.
São esses os artistas que sobrevivem ao tempo. Eles não eram “produtos”; eram expressões de um Brasil plural que incluía o samba, a MPB, o rock nacional, o nordeste de Luiz Gonzaga e a sofisticação da bossa nova.

O Risco da Alienação
O perigo de uma grade de programação monocromática é o empobrecimento do senso crítico do espectador. Ao ignorar o Funk, o Rap, o Pagode e a MPB, a TV aberta deixa de refletir o Brasil real para vender um Brasil idealizado pelos interesses do agronegócio.
No Canal Língua Solta, acreditamos que a cultura deve ser um banquete de sabores diversos, e não uma dieta forçada de um só prato. A ganância mercadológica pode ditar o topo das paradas hoje, mas o tempo — esse senhor da razão — continuará sendo o único juiz capaz de decidir quem se torna ícone e quem vira apenas ruído no arquivo das emissoras.
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