MEMÓRIA E CIDADE: Skate, nostalgia e o arquivo vivo que resgata a história visual de Castro

Publicado em Por Mayka
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​Iniciativa independente @temposdepois ganha as redes sociais ao conectar o passado e o presente da cidade por meio de vídeos comparativos e trilhas sonoras marcantes.
​Por Mayka Wogue localhost/blog_default/wordpress/ /Imagens: Divulgação/Mateus Pitela e IA

​​A ideia nasceu de forma espontânea, sob a luz dos refletores e o som das rodinhas no asfalto, durante uma sessão noturna de skate no entorno do Estádio Municipal Dorival Bortoluzzi, o Caramuru. Ao observar os jovens jogando basquete no local, o olhar atento de Cesar Russel percebeu um abismo geracional: aquela nova leva de castrenses não fazia ideia de como era a configuração antiga daquele espaço.
​”Lembrei que tinha uma foto da bilheteria. Vou postar”, conta.
​Aquela imagem despretensiosa se tornou o marco zero do perfil @temposdepois. Há dois meses no ar, a iniciativa independente vem resgatando a memória visual de Castro por meio de vídeos dinâmicos que sobrepõem fotografias históricas ao registro atual dos mesmos locais. O resultado? Um verdadeiro fenômeno de nostalgia e engajamento que fisgou o coração da cidade.

O Garimpo da Memória Coletiva
​O acervo que alimenta o projeto não nasceu pronto. César partiu de duas ou três fotografias de seu arquivo pessoal e, logo na primeira postagem, viu a mágica da comunidade acontecer. Nos comentários, internautas começaram a sinalizar que guardavam relíquias em casa.
​Em uma dessas buscas, o criador encontrou calendários antigos com registros raros do município. O processo foi artesanal: fotografou as páginas com o celular, levou o material até um estúdio fotográfico e mandou revelar no formato 15×21. Nascia ali um arquivo físico, uma espécie de mapa do tempo que serve de base para as produções de campo.
​Bastidores e Rigor Técnico
​O trabalho consome os finais de semana de César. Sábados e domingos são dedicados às captações; as edições ganham as telas entre segunda e terça-feira. No enquadramento, a busca é pela fidelidade absoluta: reproduzir o exato ângulo da foto original.
​A triagem, porém, acontece direto no asfalto. “Tem algumas fotos que, quando chego no lugar, vejo que não funcionam. Às vezes devido à qualidade da imagem, às vezes porque o local mudou tanto que sobrou muito pouco para estabelecer a comparação”, explica.
​A edição preserva a crudeza da realidade, sem filtros ou ajustes artificiais. A única intervenção artística é a escolha minuciosa da trilha sonora. “Busco trechos cuja letra dialogue diretamente com a imagem”, revela César, deixando transparecer sua sensibilidade estética.

Um Artista Multifacetado no Comando
​Quem acompanha o sucesso do @temposdepois no Instagram pode até pensar que se trata de um projeto de estreia, mas a verdade é que César Russel respira e produz arte há anos. Figura carimbada no cenário cultural da região, ele é dono de uma versatilidade rara: transita com naturalidade e excelência entre a atuação, a direção teatral e audiovisual e as artes plásticas.
​Essa bagagem como artista plástico e diretor é justamente o diferencial do projeto. É o olhar treinado de César para a composição, a luz e o movimento que transforma um simples “antes e depois” em uma pílula cinematográfica carregada de emoção.

Nem tudo, contudo, vai para a rede. Um registro do CAIC, por exemplo, nunca foi publicado. Ao tentar fazer o confronto com o presente, César descobriu que as novas construções e o crescimento das árvores apagaram completamente o ângulo original, tornando a comparação inviável — uma prova viva de que a cidade é um organismo que cresce e, às vezes, engole o próprio passado.
​O Futuro: Das Telas para as Páginas
​O impacto do @temposdepois já transbordou o ambiente digital. Durante as gravações pelas ruas de Castro, é comum que pedestres interrompam a caminhada para puxar assunto, compartilhar memórias ou acrescentar detalhes históricos aos locais filmados.
​O próximo passo dessa jornada já está desenhado.

César planeja transformar o projeto em livro, reunindo as fotografias impressas acompanhadas de crônicas, curiosidades e histórias de bastidores que foram coletadas ao longo do percurso.
​E se as fotos antigas um dia acabarem? O artista garante que o projeto é permanente. “O perfil fica ali como antigamente a gente ia até a biblioteca pesquisar. Hoje, você vai no Instagram e pesquisa o Tempos Depois”, compara. Com novas colaborações chegando diariamente e novos desdobramentos no horizonte, o arquivo vivo de Castro parece estar apenas começando a ser escrito.
​Para acompanhar essa viagem no tempo, siga no Instagram: @temposdepois