A Síndrome da Lógica Deformada: Quando Sobreviver Vira Motivo de Reclamação

Publicado em Por Mayka
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​Existe uma espécie muito específica — e infelizmente barulhenta — de analfabeto funcional social que só consegue conceber a utilidade da prevenção se ela vier acompanhada de tragédia, sangue e escombros. Por Mayka Wogue/canallinguasolta.com Se o telhado da casa dele não voou e a água não bateu no pescoço, o alerta de emergência vira “histeria estatal”, “exagero da imprensa” ou “inconveniência para o trânsito”.
​O fenômeno não é novo, mas a arrogância com que essa minoria a exibe é estarrecedora. Quando o estado do Paraná se mobilizou para enfrentar o risco de tempestades severas, acionando protocolos de segurança, cancelando aulas e colocando equipes de resgate de sobreaviso, o objetivo era simples: salvar vidas. O sucesso de qualquer plano de contingência é medido justamente pelo nada. Pelo caos que não aconteceu. Pela tragédia que não virou manchete.
​Mas para o crítico de sofá, que mede o mundo pelo próprio umbigo, a ausência de um cenário apocalíptico não é motivo de alívio; é motivo de protesto. Essa gente passou a metralhar ataques covardes contra os órgãos públicos, o portal canallinguasolta.com e os diversos veículos de comunicação e imprensa que cumpriram o dever institucional de informar e alertar. Na cabeça doentia dessa militância da ignorância, prestar um serviço de utilidade pública virou “espalhar fake news” ou “criar pânico desnecessário”.
​A hipocrisia, no entanto, escancara a fraude moral desse grupo. A lógica deformada funciona assim:
​Quando a prevenção funciona e o pior é evitado: Atacam a imprensa e o poder público por “alarmismo”, acusando profissionais de gerarem desinformação simplesmente porque a tempestade mudou de rota.
​Quando surge uma poça d’água ou goteira no próprio quintal: Montam um estardalhaço desproporcional nas redes sociais, culpam os governantes por “descaso” e, sem o menor pudor, já colocam a chave Pix na tela pedindo colaboração financeira.
​A mesquinharia expõe uma desumanidade profunda. A prevenção existe para proteger os mais vulneráveis — aqueles que moram em áreas de risco, que não têm estruturas sólidas e que dependem exclusivamente da agilidade da Defesa Civil e da precisão da imprensa. Desdenhar do trabalho de quem informa e previne, ao mesmo tempo em que se vitimiza por qualquer inconveniente insignificante para faturar uns trocados na internet, é o ápice do oportunismo.
​Que a maioria consciente continue celebrando a prevenção e valorizando o jornalismo sério. E que a minoria ranzinza continue com a sua pequenez, felizmente sã e salva, graças aos alertas e à cobertura dos veículos que ela própria insiste em apedrejar.