TRIBUTO, Morre o cineasta Luiz Carlos Barreto, o ‘Barretão’

Publicado em Por Mayka
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O visionário que moldou a identidade e a grandeza do cinema brasileiro
​Por Mayka Wogue / canallínguasolta

​O cinema brasileiro perdeu, nesta quarta-feira (22), uma de suas figuras mais emblemáticas, geniais e transformadoras. Aos 98 anos, faleceu no Rio de Janeiro o fotógrafo, produtor e cineasta Luiz Carlos Barreto Borges, carinhosamente conhecido por amigos, familiares e pelo público como “Barretão”.
​Internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, tratando uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia — com quadro de saúde fragilizado desde uma queda em 2024 —, o produtor deixa um legado inestimável que se confunde com a própria história da arte e da cultura audiovisual do Brasil no século XX e XXI.
​O velório será realizado nesta quinta-feira (23), a partir das 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo, seguido de cerimônia de cremação no Memorial do Caju. A Prefeitura do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias.
​Do fotojornalismo de O Cruzeiro ao estouro da luz sertaneja
​Nascido em Sobral, Ceará, em 20 de maio de 1928, Barreto construiu os primeiros passos de sua carreira na escrita e nas lentes do fotojornalismo. Mudou-se para o Rio de Janeiro no final da década de 1940 e consagrou-se como um dos repórteres e fotógrafos mais talentosos da célebre revista O Cruzeiro, cobrindo eventos históricos e atuando inclusive como correspondente internacional na Europa. Formou-se em Letras pela prestigiada Universidade Sorbonne, em Paris.
​No entanto, foi no início dos anos 1960 que o seu olhar clínico e estético encontrou no cinema a sua verdadeira vocação. Ao ingressar na sétima arte, não apenas produziu, mas inventou a estética visual de movimentos fundamentais.
​Como diretor de fotografia, assinou a luz marcante e antológica de duas obras-primas do Cinema Novo:
​Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos: onde desafiou os manuais da época e usou a luz estourada, crua e implacável do sol sertanejo para traduzir na tela a aridez e a angústia da seca e da opressão social.
​Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha: imprimindo um contraste dinâmico e barroco que capturou o delírio político e poético daquele momento histórico.
​O império da L.C. Barreto e as fronteiras do mundo
​Em 1963, ao lado de sua grande companheira de vida e de profissão, Lucy Barreto — com quem esteve casado por 71 anos —, fundou a L.C. Barreto. A produtora tornou-se uma verdadeira instituição do audiovisual nacional e uma “fábrica de sonhos” familiar, envolvendo os filhos Bruno, Fábio e Paula Barreto. (CONTINUA APÓS PUBLICIDADE)

Foi sob a batuta e perspicácia comercial e artística de Barretão que o cinema brasileiro alcançou marcas inéditas de público e prestígio internacional:
Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976): Dirigido por seu filho Bruno Barreto e adaptado da obra de Jorge Amado, o filme arrastou mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas, ostentando o título de maior bilheteria da história do cinema nacional por mais de três décadas.
Projeção no Oscar: A L.C. Barreto foi responsável por colocar o Brasil por duas vezes consecutivas na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional (à época, Melhor Filme Estrangeiro), com O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto, e O Que É Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto.
​”O cinema é uma doença que, quando dá, dá na família inteira. Eu costumo dizer que a minha é a ‘Família Titanic’: se não der certo, vai todo mundo pro fundo junto.”
— Luiz Carlos Barreto, em uma de suas célebres tiradas bem-humoradas.
​Um articulador incansável da cultura nacional
​Barretão não foi apenas um homem por trás das câmeras e dos orçamentos; foi um militante e estrategista da indústria cultural. Lutou bravamente pela criação de mecanismos de fomento, pela defesa do direito autoral, pelo fortalecimento da distribuição do cinema brasileiro e pela sobrevivência das instituições de preservação da memória audiovisual do país.
​Sua voz forte e posicionamento combativo formaram gerações de realizadores, produtores e jornalistas culturais. Para ele, o cinema não era mero entretenimento, mas a certidão de identidade e a soberania de um povo refletida na tela grande.

O adeus a um gigante
​Luiz Carlos Barreto deixa a esposa Lucy Barreto, os filhos Bruno e Paula (o cineasta Fábio Barreto faleceu em 2019), além de nove netos e oito bisnetos.
​O Canal Língua Solta se solidariza com os familiares, amigos e com toda a comunidade artística do Brasil neste momento de dor e reflexão.
​O homem Luiz Carlos Barreto nos deixa, mas as luzes que ele acendeu na tela do cinema brasileiro jamais se apagarão.
​Vá em paz, Barretão! 🖤🎬🙏