
Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com A Polícia Militar do Paraná já colocou no papel a sua versão sobre o episódio na porta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Castro. E, para a surpresa de zero pessoas acostumadas à burocracia das notas oficiais, a narrativa corporativa parece saída de um drama de sobrevivência extrema.
Segundo a corporação, o policial militar — que estava de folga e foi à UPA em busca de atendimento médico — não teve escolha a não ser sacar a arma e disparar contra um cão comunitário porque foi “investido por cães”. Uma verdadeira batalha pela vida travada bravamente na calçada do serviço público de saúde.
A física quântica: nota oficial vs. testemunhas
O grande mistério do caso não é quem apertou o gatilho, mas como o mesmo ambiente produz duas realidades paralelas tão discrepantes:
Na versão oficial (PM): Um policial cidadão de folga, que buscava atendimento médico, viu-se subitamente encurralado por uma matilha feroz e foi compelido a usar força letal para neutralizar o perigo iminente.
Na versão das testemunhas: Populares e frequentadores da UPA viram um homem contrariado com a presença dos animais comunitários — conhecidos no local e sem histórico de agressão — resolvendo o incômodo na base do estampido, em pleno dia e diante de todos.
Pergunta-se ao cidadão (e às autoridades)
Diante desse cenário absurdo, o portal Canal Língua Solta deixa no ar três perguntas elementares que a nota oficial preferiu ignorar:
Se um cão de rua me incomoda, posso simplesmente abatê-lo a tiros? A partir de agora, o incômodo com animais urbanos passou a ser gerido por execução sumária na calçada?
Para que serve a Lei Sansão (Lei 14.064/20)? A legislação federal que aumentou a pena para maus-tratos e morte de cães e gatos para 2 a 5 anos de reclusão virou mera sugestão poética quando quem aperta o gatilho carrega uma carteira funcional?
Posso atirar em via pública ao meu bel-prazer? Efetuar disparos de arma de fogo na porta de uma unidade de saúde pública, com trânsito de pacientes, idosos e crianças, passou a ser conduta aceitável sob o pretexto de “afastar cães”?

O roteiro institucional de sempre
Quando a comoção toma conta das ruas e a indignação ganha as redes, o protocolo institucional entra em ação sem falhar uma vírgula: emite-se a nota padronizada, aciona-se a Zoonoses para recolher o corpo e conclui-se com o tradicional repasse de bastão — “caberá à Polícia Civil apurar”, ou melhor, “abafar”.
Para a população de Castro que assistiu à cena, o recado que fica é perturbador. Enquanto o inquérito corre nos gabinetes e o papel aceita qualquer tese, o cão comunitário está morto, quem presenciou a barbárie segue horrorizado e a “legítima defesa contra latidos” ganha mais um capítulo no arquivo das justificativas oficiais.



