A Barbárie Fantasiada de Conteúdo: A Linha Tênue Entre o Entretenimento e a LGBTfobia nas Redes

Publicado em Por Mayka
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Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com No atual cenário digital, a busca desenfreada por engajamento e visualizações tem empurrado criadores de conteúdo para além dos limites da ética, do bom senso e da legalidade. O recente episódio envolvendo o ator João Victor Gonçalves, hostilizado na saída de um grande festival pelo streamer GH (GH Rell RJ) e seu grupo durante uma transmissão ao vivo, é o retrato fiel de uma era em que o preconceito é comercializado como entretenimento. Sob o disfarce de “piada” ou “crítica de moda”, perpetua-se uma violência psicológica que o Brasil, legalmente, já não tolera.
​Essa dinâmica ganha contornos ainda mais graves quando observamos a realidade socioeducacional do país, onde, infelizmente, a população se digitalizou antes de se alfabetizar e desenvolver um letramento crítico mínimo. Trata-se de um cenário alarmante em que quase 70% da população brasileira não consegue interpretar plenamente um texto simples ou integrar informações fundamentais. Lançadas a um ecossistema hiperconectado sem o devido preparo para filtrar discursos, identificar manipulações ou compreender a gravidade do ódio velado, multidões de usuários tornam-se presas fáceis e reprodutoras automáticas da barbárie virtual.
​O argumento defensivo de GH, que alegou que os comentários jocosos eram direcionados “apenas às roupas” do ator, não se sustenta diante de uma análise minimamente crítica. A estética e a expressão de indivíduos LGBTQIA+ historicamente servem de gatilho e alvo para a validação do preconceito estrutural. O histórico do streamer torna o quadro ainda mais grave: não se trata de um fato isolado, mas de uma conduta reincidente. GH já havia cometido crime semelhante ao hostilizar uma mulher trans durante uma transmissão ao vivo — ocasião em que a vítima, com extrema elegância e firmeza, o colocou em seu devido lugar e expôs o ridículo de sua postura.
​A reincidência revela um padrão explícito e deliberado. Há uma profunda e dolorosa incongruência nessa postura: sendo um homem negro — pertencente a um grupo racial que rotineiramente enfrenta as marcas da discriminação no Brasil —, causa espanto vê-lo ocupar repetidamente o papel de agressor contra outras minorias sociais. A atitude traz à tona a trágica máxima de Paulo Freire de que, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor. Em vez de usar sua visibilidade para romper com a lógica da discriminação, o streamer optou por reproduzir a exata violência de que seu grupo social é vítima, buscando validação por meio da humilhação alheia. Reduzir essa perseguição a um mero comentário estético é uma tentativa covarde de esvaziar o debate e fugir da responsabilização jurídica. A homofobia e a transfobia recreativas operam exatamente nessa brecha: o agressor humilha, monitora a reação do público e, ao ser confrontado, aciona a clássica cortina de fumaça do “foi apenas uma brincadeira”.
​Diante do ataque, a reação social trouxe um sopro de lucidez e firmeza. João Victor Gonçalves recebeu uma expressiva onda de apoio liderada por colegas de profissão, políticos, intelectuais e ativistas dos direitos humanos. A essa rede de repúdio ao preconceito soma-se a total e irrestrita solidariedade de toda a equipe do portal canallinguasolta.com e de sua editora Mayka Wogue, reafirmando o compromisso de um jornalismo que não se cala diante de injustiças. Essa mobilização conjunta reforça que a violência sofrida pelo ator não é um problema individual, mas uma afronta coletiva aos direitos fundamentais e à dignidade humana.
​Mais alarmante do que a atitude individual de GH é a cumplicidade silenciosa das plataformas de transmissão — como a Kick, onde o ato foi veiculado — e do próprio público que consome esse tipo de material. Transmitir ao vivo o constrangimento de um cidadão para milhares de espectadores transforma a audiência em cúmplice de um linchamento virtual e real. Quando o ódio gerado por criadores reincidentes rende cliques, e esses cliques geram monetização, a intolerância torna-se um modelo de negócios lucrativo. É urgente que as plataformas assumam o papel de moderadoras ativas, não apenas derrubando transmissões, mas estabelecendo a perda do direito de monetizar e o banimento definitivo dos envolvidos.
​O posicionamento firme de João Victor Gonçalves ao acionar os meios legais contra GH é um passo pedagógico indispensável, fortalecido pelo respaldo moral e político da sociedade civil e da imprensa comprometida. Contudo, essa mobilização precisa culminar em respostas severas por parte das autoridades e do Judiciário. Diante do histórico reiterado de infrações, uma punição exemplar é urgente e necessária tanto para o criador de conteúdo — demonstrando que a agressão reincidente traz consequências cíveis e criminais reais — quanto para a própria plataforma, que deve responder civil e financeiramente por lucrar com a propagação contínua do discurso de ódio. O espaço público — físico ou digital — pertence a todos, e o direito à livre expressão jamais deve ser confundido com a liberdade de violar a dignidade alheia. Que o caso sirva de alerta definitivo: internet não é terra sem lei, engajamento não absolve criminosos e o preconceito fantasiado de “conteúdo” só deixará de existir quando a conta cobrada aos agressores e às redes for infinitamente mais alta do que o lucro obtido com os cliques.