
Por Mayka Wogue / canallinguasolta / IA A história do Brasil adora rimar. Em março de 1985, o general João Baptista Figueiredo, último presidente do regime militar, deixou o Palácio do Planalto por uma saída lateral. Recusou-se terminantemente a entregar a faixa presidencial a José Sarney, a quem considerava um “traidor” por ter migrado para a oposição.
Trinta e sete anos depois, o roteiro ganhou contornos de déjà vu. Em 30 de dezembro de 2022, faltando menos de dois dias para o fim de seu mandato, o presidente Jair Bolsonaro embarcou no avião presidencial rumo a Orlando, nos Estados Unidos. Ao optar por não estar no Brasil no dia 1º de janeiro de 2023, Bolsonaro repetiu o gesto de Figueiredo: evitou o aperto de mãos, quebrou o rito tradicional e se recusou a passar a faixa ao seu sucessor e arquirrival político, Luiz Inácio Lula da Silva.
A repetição do gesto levanta uma questão essencial para entendermos as lideranças do nosso país: Essas atitudes nascem de uma convicção ideológica inabalável ou são apenas o reflexo de um orgulho profundamente ferido?
A Linha da Convicção: O Recado para a Própria Base
Para os defensores de ambos os presidentes, o gesto de não transmitir o cargo não foi uma fraqueza, mas um ato de fidelidade aos seus princípios e aos seus eleitores/apoiadores.
Em 1985: Figueiredo olhava para Sarney e via o oportunismo de quem se beneficiou do regime militar por vinte anos e saltou do barco na última hora. Para o general, passar a faixa seria legitimar o que ele considerava uma farsa moral.
Em 2022: Bolsonaro e seus aliados mais próximos viam o processo eleitoral e a própria figura de Lula com profunda desconfiança e antagonismo. Sob a ótica de sua base mais fiel, participar da cerimônia seria uma espécie de “capitulação” ou a validação de um governo que eles consideravam ilegítimo.
Nesses dois casos, o argumento da convicção sustenta que o líder preferiu o isolamento e a quebra de protocolo a ter de fingir uma fidalguia que não sentia. (CONTINUA APÓS PUBLICIDADE)

A Linha do Orgulho: Quando o Ego Engole a Liturgia do Cargo
Por outro lado, cientistas políticos e historiadores enxergam esses episódios sob uma lente muito menos heroica: a do orgulho ferido e da incapacidade de aceitar a derrota.
A faixa presidencial não pertence ao homem que ocupa a cadeira; ela pertence à instituição da Presidência da República e, em última análise, ao povo brasileiro. Quando um governante se retira pelos fundos ou viaja para outro país para evitar o rito de passagem, ele apequena a liturgia do cargo perante suas desavenças pessoais.
Tanto Figueiredo quanto Bolsonaro demonstraram uma imensa dificuldade em lidar com o fim de seus ciclos de poder. O gesto de “levar a bola para casa” quando o jogo não termina como o esperado transforma a transição democrática — que deveria ser um momento de maturidade institucional — em um espetáculo de ressentimento.
O Povo Ocupa o Vazio
O desfecho dessas duas histórias mostra que as instituições sobrevivem aos humores dos governantes. Em 1985, a faixa de Sarney acabou sendo guardada e entregue por funcionários do palácio. Em 2023, a solução foi ainda mais simbólica: a faixa foi entregue a Lula por um grupo de cidadãos que representavam a diversidade do povo brasileiro, liderados pela catadora Aline Sousa.
A história da redemocratização e a história recente nos ensinam a mesma lição: o poder no Brasil muda de mãos com ou sem rancor. Os governantes passam, as mágoas se tornam notas de rodapé nos livros de história, mas a República segue o seu curso.
O que você acha, leitor do Canal Língua Solta? Figueiredo e Bolsonaro agiram com coerência e coragem política ao manterem suas posições, ou faltou a ambos o espírito de estadista para colocar o rito democrático acima das divisões pessoais? Solte a sua língua nos comentários


