
Por Mayka Wogue / localhost/blog_default/wordpress/ A história é feita de memória, mas, acima de tudo, de reciprocidade. Ao determinar o início imediato de uma operação humanitária para socorrer as vítimas dos devastadores terremotos na Venezuela, o prefeito de Manaus, Renato Junior, não apenas cumpre um papel logístico estratégico que a geografia lhe impõe. Ele assina um ato de profunda dignidade humana e responsabilidade histórica.
A abertura do almoxarifado da Semasc no bairro Petrópolis para centralizar as doações é a resposta institucional que se espera de uma metrópole amazônica diante de uma tragédia que já soma mais de 1.400 mortos e milhares de desabrigados do outro lado da fronteira.
A Memória do Oxigênio: Quando a Venezuela Salvou Vidas no Amazonas
É impossível olhar para a iniciativa atual de Manaus sem ativar o retrovisor de um dos momentos mais dramáticos da história recente da capital amazonense. Em janeiro de 2021, durante o colapso do sistema de saúde na pandemia de Covid-19, quando faltava o próprio ar para os pacientes internados e o governo federal se negava a enviar socorro, foi a Venezuela que estendeu a mão.
O país vizinho enviou caminhões carregados com milhares de quilos de oxigênio hospitalar para abastecer as UTIs de Manaus. Foi um gesto de puro humanitarismo que salvou centenas de pais, mães e filhos amazonenses. Como bem destacou o prefeito Renato Junior ao anunciar a força-tarefa:
“Na crise do oxigênio, quando o Amazonas precisava de ajuda, a Venezuela estendeu a mão. As fronteiras separam países, mas não separam os povos.”
O Contraste com a Linha do Tempo da Desinformação
A nobreza da ação atual contrasta fortemente com um episódio lamentável da política brasileira. Naquela mesma época em que carretas de oxigênio cruzavam a fronteira para salvar vidas brasileiras, setores ideológicos ligados ao bolsonarismo empenharam-se em uma deplorável campanha de desinformação.
Em vez de agradecer pelo socorro vital, militantes e canais de fake news tentaram de tudo para sabotar o gesto:
Inventaram que o oxigênio era “industrial e impróprio” (uma mentira técnica desmentida pelos hospitais);
Disseminaram boatos de que a ajuda era uma “jogada comunista” para infiltrar agentes;
Minimizaram a crise humanitária local para desviar o foco da incompetência de gestão que o próprio Brasil enfrentava no Ministério da Saúde e na presidência.
Essa tentativa de desumanizar o vizinho por puro cálculo político-ideológico empobreceu o debate público e ignorou o valor de cada vida salva nos leitos de Manaus graças àquele insumo.
O Valor da Reciprocidade
Ao ignorar as barreiras ideológicas e focar estritamente no valor da vida, a prefeitura de Manaus se agiganta. A mobilização em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB) para fazer chegar água, alimentos, remédios e materiais de higiene às cidades venezuelanas destruídas é o pagamento de uma dívida moral de gratidão.
Mais do que política, a atitude de Renato Junior reestabelece a decência nas relações fronteiriças. Mostra que o povo manauara tem memória, tem coração e sabe que, diante da dor de um terremoto ou da falta de ar em um hospital, a única bandeira que importa é a da solidariedade.


