
Por Mayka Wogue / canallinguasolta
18 de agosto de 2026
Escrever este texto é um exercício doloroso de superação do próprio impacto. Como jornalista que devotou a vida a acompanhar, registrar e reverenciar a memória da nossa cultura, confesso que faltam palavras para descrever o peso deste dia. Ainda entorpecida com a notícia do falecimento de Laura Cardoso, aos 98 anos — um golpe que por si só já paralisava o meio artístico e abalava o país —, sou surpreendida por um novo e devastador golpe: a confirmação da morte de Glória Menezes, aos 91 anos.
Em um intervalo de poucas horas, o Brasil assistiu ao encerramento de duas trajetórias monumentais. O falecimento de Glória, ocorrido no mesmo dia em que recebeu a dolorosa notícia da partida de sua grande amiga e parceira de palco, transforma este 18 de agosto em um marco definitivo e trágico na história da teledramaturgia e do teatro nacional.
O Vínculo de Uma Vida: Amizade Moldada nos Bastidores
A relação entre Glória Menezes e Laura Cardoso transcendeu, por décadas, os limites dos estúdios. Nascidas no seio da consolidação das artes cênicas no Brasil, viram de perto a evolução do rádio para a televisão, a chegada da TV a cores e a transformação da telenovela em patrimônio cultural do país.
Trabalharam juntas em produções históricas — como no clássico Rainha da Sucata (1990) —, mas foi no cotidiano fora dos holofotes que construíram uma cumplicidade rara. Eram confidentes, referências mútua e cúmplices de uma profissão que exige entrega absoluta. Laura admirava a altivez, o olhar marcante e a presença cênica inconfundível de Glória. Glória, por sua vez, reverenciava a visceralidade, a força e a espontaneidade de Laura.
Juntas, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro, formavam o núcleo das “grandes damas” da atuação nacional — mulheres que abriram caminhos e ensinaram o país a valorizar o trabalho do ator.
A Tristeza do Golpe Final e o Reencontro do Destino
Aqueles que acompanhavam a intimidade de Glória Menezes sabiam do carinho profundo e genuíno que ela nutria por Laura. A confirmação da morte da amiga, nas primeiras horas do dia, abalou profundamente a atriz. A dor do luto reencontrou uma mulher que já trazia no peito as saudades de Tarcísio Meira — seu companheiro de vida e cena, partido em 2021.
A coincidência da partida no mesmo dia não soa como mero acaso para quem entende a sensibilidade dos grandes artistas. Pareceu, antes, um ato cênico derradeiro: duas amigas que dividiram o protagonismo da história cultural do país decidindo, em sintonia, fechar as cortinas do mundo terreno no mesmo ato.
Uma Trajetória Impecável: Do Festival de Cannes à TV Diária
Falar de Glória Menezes é repassar os capítulos mais nobres da arte brasileira. Nascida em Pelotas (RS) em 1934 e formada pela tradicional Escola de Arte Dramática (EAD) da USP, Glória gravou seu nome na história do cinema mundial ao estrelar O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte — até hoje o único filme brasileiro a conquistar a cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Na televisão, foi pioneira absoluta. Protagonizou, em 1963, 2-5499 Ocupado na TV Excelsior, a primeira novela diária do país, ao lado de Tarcísio Meira. Na TV Globo, deu vida a dezenas de personagens inesquecíveis:
A tripla personalidade de Lara, Diana e Márcia em Irmãos Coragem (1970);
A inesquecível e vilanesca aristocrata Laurinha Figueroa em Rainha da Sucata (1990);
A refinada e cômica Roberta Leone em Guerra dos Sexos (1983);
A marcante Irene em A Favorita (2008).
Sua capacidade de ir do drama denso à comédia sofisticada fazia dela uma atriz completa, admirada tanto pela crítica quanto pelo público.
A Perda Inestimável para a Memória Nacional
A partida simultânea de Glória Menezes e Laura Cardoso deixa um vazio imensurável na identidade artística do Brasil. Ambas representavam uma formação rigorosa, um respeito sacrossanto ao texto e uma devoção irrestrita à arte.
Como jornalista, o dever de noticiar estas perdas é atravessado por um sentimento contundente de desolamento, como cineasta e diretora, a dor e o sentimento de orfandade. Elas não apenas atuaram; elas desenharam o rosto da dramaturgia brasileira e nos ajudaram a compreender quem fomos e quem somos enquanto povo.
O Brasil chora hoje a perda de duas de suas maiores luzes. Mas, como ocorre com as grandes obras de arte, o brilho de Glória Menezes e Laura Cardoso permanece eterno, gravado nas telas e, sobretudo, no coração da memória coletiva do nosso país.


