
Existiu um dia em que quase metade da humanidade parou para assistir a um show, 13 de julho de 1985. Metade do planeta estava olhando para o mesmo lugar. Isso hoje parece banal. Basta abrir o celular e pronto. Em 1985 isso era quase magia tecnológica. Agora imagina a cena. Você liga uma televisão de tubo. Aquelas grandes, meio arredondadas, que demoravam uns segundos para a imagem estabilizar. A tela acende. Surge um estádio completamente lotado. A câmera passeia pela multidão. Gente pra todo lado. Aí alguém diz: “Esse show está sendo transmitido para o mundo inteiro.”… E não era exagero. A transmissão chegava a mais de 150 países e algo perto de 1,5 bilhão de pessoas acompanhava aquilo ao mesmo tempo. Na escala populacional da época, quase metade da humanidade estava ali, assistindo à mesma coisa. Esse show ganhou um nome simples: Live Aid. Eu nasci em 1990. Cheguei atrasado para esse sábado. Mesmo assim, toda vez que vejo as imagens desse evento eu fico com aquela sensação estranha de nostalgia emprestada. Sabe quando você olha para um momento da história e pensa: caramba, eu queria ter estado ali. Se existisse uma máquina do tempo, eu pisaria direto nesse dia. Essa história começa com um cara chamado Bob Geldof. Músico irlandês. Um sujeito meio inquieto. Um dia ele assistiu a uma reportagem sobre a fome devastadora na Etiópia. As imagens eram pesadas. Crianças desnutridas, famílias inteiras tentando sobreviver… a gente sabe como é.Aquilo ficou martelando na cabeça dele.E Geldof fez uma coisa muito simples e muito poderosa ao mesmo tempo: começou a ligar para amigos. Só que os amigos dele eram gente como David Bowie, Elton John, Paul McCartney, Madonna e U2. A ideia cresceu rápido. Dois estádios gigantes entraram na jogada. Em Londres, o lendário Wembley Stadium. Nos Estados Unidos, o John F. Kennedy Stadium. Satélites conectaram os dois lados do Atlântico. Para 1985 isso parecia coisa de filme de ficção científica. O planeta virou uma grande plateia. E então começaram os shows. Um artista atrás do outro. Um line-up que hoje parece quase impossível de reunir num único dia. Simple minds? Sim! Só que em algum momento da tarde aconteceu um daqueles episódios que entram direto para a história da cultura pop. A banda Queen subiu ao palco de Wembley.
Só esse show durou cerca de vinte minutos. Vinte minutos bastaram para transformar um estádio inteiro em um coro humano. Mercury comandava aquela multidão como se estivesse regendo uma orquestra gigante. Palmas sincronizadas. Vozes respondendo. Um estádio inteiro cantando junto. Muita gente até hoje descreve aquele momento como uma das maiores apresentações ao vivo da história do rock. Só de escrever estou todo arrepiado. Credo! Que delícia. Só que o impacto daquele dia foi além do espetáculo. O Live Aid arrecadou mais de 125 milhões de dólares destinados ao combate da fome na Etiópia. Música, satélites, televisão e uma ideia teimosa de um músico indignado criaram um daqueles momentos raros em que a humanidade resolve agir junta. Eu gosto de imaginar essa cena. Um planeta inteiro olhando para televisões de tubo. Pessoas em Londres, Nova York, São Paulo, Tóquio, Buenos Aires… todo mundo vendo a mesma transmissão. Um dia em que a música virou notícia mundial. A história humana adora registrar guerras, conflitos e crises. O Live Aid registra outra coisa também. A capacidade que a gente tem de se mobilizar quando alguém acende a faísca certa.
Texto: Fagner Oliveira
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