O Brasil perde sua voz mais telúrica: Um tributo a Benedito Ruy Barbosa

Publicado em Por Mayka
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A teledramaturgia brasileira perdeu, na manhã desta terça-feira (7), um de seus maiores arquitetos. Aos 95 anos, faleceu em São Paulo o escritor e dramaturgo Benedito Ruy Barbosa. Por Mayka Wogue localhost/blog_default/wordpress/ Internado no hospital HCor devido a complicações de uma insuficiência renal crônica — condição que enfrentava com bravura há três anos —, Benedito deixa um vazio imensurável na cultura nacional, mas também um legado que se funde com a própria identidade do Brasil.
Enquanto muitos autores buscavam a modernidade e os dilemas dos grandes centros urbanos, Benedito fez o caminho inverso: ele olhou para o interior. Foi o homem que transformou o som do berrante, o cheiro da terra molhada, os conflitos agrários e a saga dos imigrantes em fenômenos de audiência recordes. Ele provou que o Brasil profundo não era apenas um cenário, mas o verdadeiro protagonista da nossa história.
As Aberturas que Marcaram Época e o Dono das Sagas Épicas da TV
Falar da obra de Benedito Ruy Barbosa é falar de um país que se enxergava na tela. Suas novelas não apenas contavam histórias, mas paravam o Brasil desde os primeiros acordes de suas aberturas icônicas, verdadeiras obras de arte que preparavam o telespectador para mergulhar em suas tramas:
Pantanal (1990): Ao som da marcante composição do grupo Sagrado Coração da Terra, a abertura trazia a transformação mística de uma mulher em onça-pintada e imagens deslumbrantes da fauna e flora pantaneiras. Capturava perfeitamente o realismo fantástico e a exuberância selvagem que ditaram o tom da novela que desafiou impérios televisivos.
O Rei do Gado (1996): Uma das aberturas mais lembradas da história da TV, embalada pelo tema instrumental da Orquestra da Terra. A imagem icônica de milhares de cabeças de gado marchando em meio à poeira dourada, que culminava na silhueta do imenso rebanho formando um mapa do Brasil, traduzia a rivalidade histórica entre os Mezenga e os Berdinazzi, e levava o debate sobre a reforma agrária para os lares de milhões de brasileiros.
Renascer (1993): A força mística do cultivo do cacau na Bahia era anunciada pela voz potente de Ivan Lins com a canção “Confins”. A abertura exibia o nascimento e o florescer do jequitibá-rei, árvore sagrada que selou o destino e o pacto de imortalidade do inesquecível protagonista José Inocêncio.
Terra Nostra (1999): Uma grandiosa produção que começava com a emocionante e operística “Tormento d’Amore”, interpretada por Agnaldo Rayol e Charlotte Church. As imagens em tons de sépia mostravam o imenso navio a vapor cortando o oceano, simbolizando as dores, esperanças e a saga dos imigrantes italianos que cruzaram o mar para construir uma nova vida nas lavouras de café paulistas.
Sinhá Moça (1986): A abertura clássica trazia a sensível interpretação de Ivan Lins para a música homônima, acompanhando ilustrações e gravuras históricas do século XIX que retratavam o período imperial. A sequência costurava com maestria o lirismo romântico e a contundência política da luta abolicionista e do coronelismo.
Crítica e Poesia no Mesmo Texto
O que tornava o texto de Benedito único era a sua capacidade de unir o lirismo bucólico à crítica social contundente. Ele não camuflava as injustiças do campo, a solidão do homem pantaneiro ou a exploração do trabalhador; ao contrário, usava a ficção como uma lente de aumento para as verdadeiras identidades que o Brasil urbano muitas vezes insistia em ignorar.
Suas novelas eram longas sinfonias sobre a terra. Sob a sua caneta, a natureza operava milagres, homens conversavam com o diabo em garrafas e o gado cruzava fronteiras em comitivas que pareciam saídas de contos de fadas realistas.
Um Silêncio no Interior do Brasil
Com a sua partida, o berrante calou-se mais cedo hoje. O Pantanal, as planícies de Ilhéus e os cafezais paulistas perderam o seu cronista mais apaixonado. As principais emissoras, artistas e companheiros de jornada artística já manifestam suas homenagens, unânimes em um ponto: o Brasil de Benedito era gigantesco.
Nós, do Canal Língua Solta, prestamos nossa reverência a esse mestre das palavras que, como poucos, soube traduzir a alma, o suor e o coração do povo brasileiro. Que a terra que ele tanto amou e descreveu lhe seja leve.
Descanse em paz, Benedito Ruy Barbosa.