O Preço do Tempo: A Cobrança Cruel, a Hipocrisia Estética e o Etarismo Contra Xuxa Meneghel

Publicado em Por Mayka
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Em um país sem memória, envelhecer sob os holofotes é um ato de resistência. Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com / Imagens IA Quando a figura em questão é Xuxa Meneghel — o maior ícone pop infantil da América Latina —, a passagem do tempo deixa de ser um processo natural para se tornar um debate público impiedoso. Os constantes ataques etaristas direcionados à apresentadora nas redes sociais revelam uma ferida profunda da nossa cultura: a recusa em aceitar a longevidade feminina, a amnésia histórica e uma profunda hipocrisia sobre a imagem e o corpo da mulher.
​O Fenômeno Inalcançável: Números que o Brasil Tenta Esquecer
​Antes de analisar o julgamento estético sobre Xuxa, é preciso resgatar a dimensão do seu gigantismo. Nenhum outro artista brasileiro — antes ou depois dela — alcançou os números de vendas, a penetração cultural e a projeção internacional que Xuxa acumulou no auge de sua carreira:
​Carreira Global: Mais de 50 milhões de discos vendidos no mundo inteiro, com o Xou da Xuxa 3 no Guinness Book como o álbum infantil mais vendido da história da música global.
​Acontecimentos Internacionais: Apresentou programas próprios simultaneamente em português, espanhol (transmitido para mais de 17 países da América Latina e Estados Unidos) e em inglês (nos EUA pela rede MTM).
​Império e Audiência: Chegou a ter mais de 250 milhões de telespectadores diários ao redor do planeta e construiu uma das maiores fortunas do entretenimento mundial, sendo frequentemente apontada pela imprensa internacional como a maior popstar da história do Brasil.
​Ignorar esse patrimônio cultural para reduzir uma mulher desse porte ao estado da pele do seu pescoço ou às rugas ao redor dos seus olhos é a prova definitiva do apego ao fútil em detrimento da memória histórica.

A Hipocrisia das Pernas: O Corpo Ontem e Hoje
​Existe uma contradição flagrante na forma como a sociedade consome a imagem de Xuxa. Nas décadas de 1980 e 1990, o Brasil idolatrava as pernas de fora, os microshorts e os maiôs cavados que a apresentadora usava nas manhãs de TV. Aquela superexposição estética e jovem era aplaudida, consumida e transformada em padrão de beleza nacional.
​O duplo padrão moral surge hoje: a mesma sociedade que erotizou e fetichizou aquele corpo jovem passa a condenar e ridicularizar as mesmas pernas quando elas exibem as marcas naturais dos 60 anos. Se Xuxa mostra as pernas hoje, é acusada de “não ter idade para isso”; se as esconde, é julgada por “estar decadente”. A mensagem implícita é cruel: o corpo da mulher só tem permissão para existir publicamente enquanto servir ao deleite estético alheio

O Espelho Inconveniente: Fãs Cinquentões e a Recusa do Próprio Espelho
​Há um elemento quase psicanalítico no etarismo praticado contra a apresentadora: os próprios críticos envelheceram junto com ela. As crianças que baixavam da nave nos anos 80, as “baixinhas” que cantavam Ilariê, hoje são adultos na casa dos 40 e 50 anos.
​Ao atacarem a aparência de Xuxa nas redes sociais, esses fãs parecem descontar na artista a frustração com o próprio envelhecimento. Projetou-se na “Rainha dos Baixinhos” um pacto de imortalidade e juventude eterna. Ver Xuxa com rugas, pescoço marcado ou cabelos brancos obriga essa geração a encarar o próprio espelho e aceitar que o tempo passou para todos. A agressão à imagem dela funciona como uma tentativa desesperada de negar a própria finitude.
​A Ilusão da Crítica e o Privilégio da Vivacidade
​Além do julgamento estético, há um desconhecimento gritante sobre a realidade do envelhecimento no Brasil. Chegar aos 60 anos com a saúde, a energia, a mobilidade e a plenitude profissional de Xuxa não é apenas uma conquista individual, mas uma exceção em termos de saúde pública e qualidade de vida.
​Grande parte da população brasileira enfrenta barreiras no acesso à prevenção médica, alimentação equilibrada, atividade física orientada e descanso adequado ao longo da vida, resultando em um envelhecimento frequentemente marcado por limitações físicas e dores precoces. Ver uma mulher sexagenária comandar turnês em estádios, dançar por horas, manter a pele viçosa e esbanjar energia no palco deveria gerar inspiração, e não ressentimento. Criticar a aparência de alguém que ostenta tamanha vivacidade revela uma cegueira social sobre o que realmente significa envelhecer bem.
​”Eu vou ficar velha na frente de todo mundo. Estou velha e só não vou ficar mais se eu morrer. Está difícil ver as pessoas não aceitarem isso.”
— Xuxa Meneghel, em desabafo sobre as cobranças por sua aparência.

A Intersecção Cruel: Etarismo e Machismo
​O etarismo (ageísmo) afeta a todos, mas atinge as mulheres com uma violência desproporcional. Homens públicos maduros costumam ser rotulados como “charmosos”, “experientes” ou “grisalhos interessantes”. Já as mulheres que ultrapassam a casa dos 50 ou 60 anos enfrentam uma patrulha dupla: são cobradas por intervenções estéticas e, simultaneamente, ridicularizadas se “exageram” nos procedimentos ou se optam pela naturalidade.
​Quando uma mulher com a história de Xuxa decide não se submeter à ditadura do rejuvenescimento forçado, assumindo sua estética sem pedir licença, a resposta de uma parcela do público é a punição através da hostilidade virtual. (CONTINUA APÓS PUBLICIDADE)

Expectativa e Memória: O Quarto Reencontro em Curitiba
​É no palco que todas essas narrativas rasas caem por terra. É por isso que a equipe e o público do Canal Língua Solta aguardam ansiosamente a chegada da turnê “O Último Voo da Nave” à capital paranaense.
​No dia 26 de setembro, a nave pousa na Arena da Baixada, em Curitiba, para um espetáculo que promete emocionante resgate de memórias. Para esta que vos escreve, a noite terá um peso ainda mais especial: será a quarta vez na vida que estarei diante da Rainha Xuxa. Uma trajetória pessoal e profissional que atravessou décadas, presenciando de perto a evolução, a força e o carisma inabalável de uma artista que marcou a nossa história de forma definitiva.
A Resposta como Prestação de Serviço
​Apesar da crueldade dos comentários nas redes, a postura de Xuxa diante do etarismo cumpre um papel pedagógico essencial no Brasil:
​Desmistificação do Corpo Real: Ao posar sem filtros e exibir suas marcas com altivez, ela valida a experiência de milhões de brasileiras anônimas que sofrem a mesma pressão diária.
Celebração da Longevidade Ativa: Mostra que a maturidade não significa aposentadoria existencial nem perda de relevância artística — provado por suas superproduções e turnês em estádios.
​Emancipação: Reivindicar o direito de envelhecer e continuar vestindo o que quiser (inclusive mostrando as pernas) é um ato político de libertação feminina.
​Celebrar a trajetória e o presente de Xuxa Meneghel é, no fundo, fazer as pazes com a nossa própria história. O público que cresceu com ela precisa entender que a beleza da vida não se encerra na juventude — e que honrar o tempo de Xuxa é honrar a história da cultura pop brasileira, a própria maturidade e o privilégio de estarmos todos vivos para presenciar mais esse capítulo. Nos vemos em Curitiba!