RJ, ​A Máscara do “Cidadão de Bem”: Quando a Moralidade Morre no Contracheque Fantasma

Publicado em Por Mayka
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Por M|ayka Wogue/ localhost/blog_default/wordpress/ ​ Existe uma categoria específica de brasileiro que habita as redes sociais e as ruas com a Bíblia numa mão e o chicote da “moralidade” na outra. São os autointitulados “cidadãos de bem”. Eles clamam por ordem, exigem o fim da corrupção, pregam a família tradicional e vomitam discursos inflamados sobre o mérito, o livre mercado e o trabalho duro.
​Mas basta olhar para o contracheque de muitos deles — ou melhor, para a ausência de trabalho que o fundamenta — para que a máscara caia. E quando cai, não revela um guardião dos valores, mas um parasita do Estado.
​O recente escândalo das exonerações no Governo do Rio de Janeiro — que já extirpou mais de 4 mil servidores fantasmas — expôs a face mais asquerosa desse teatro de virtudes. Descobrimos, para surpresa de absolutamente ninguém, que a máquina pública fluminense não estava apenas sendo mal gerida; ela estava sendo drenada pelos mesmos personagens que, durante anos, ocuparam púlpitos, palanques e tribunas para ditar o que é “certo” e “errado”.
​A Herança Maldita do Crime Institucional
​Para entender o tamanho do cinismo, precisamos lembrar onde esse teatro é encenado. Estamos falando do Rio de Janeiro, o estado que detém o trágico recorde de governadores e ex-governadores presos, processados ou afastados por corrupção. Uma terra onde a Assembleia Legislativa virou, por diversas vezes, caso de polícia, com deputados flagrados em esquemas de corrupção e, pior, mantendo ligações umbilicais com facções criminosas e milícias territoriais.
​É nesse ecossistema de degradação institucional que o “cidadão de bem” prospera. Enquanto o crime organizado dita as regras nas comunidades, o crime de colarinho branco dita as regras nas subsecretarias. O loteamento de cargos comissionados para fantasmas nada mais é do que a versão burocrática das taxas de extorsão cobradas nas esquinas: ambas servem para financiar o poder de quem se acha acima da lei.
​O “Mérito” é Só para o Vizinho
​A hipocrisia é o combustível que move essa engrenagem. O “cidadão de bem” é um devoto fervoroso da meritocracia — desde que ela seja aplicada aos outros. Para o filho do trabalhador, o mercado é um lugar cruel onde só prospera quem acorda às 4h da manhã. Para o apadrinhado político acomodado em uma Secretaria de Esporte ou Turismo, o mérito é uma bobagem. O que vale é a lealdade cega, o silêncio cúmplice e a carteirada.
​Como essa gente consegue deitar a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência tranquila sabendo que o sustento da sua casa vem do roubo disfarçado de cargo público? A resposta é o cinismo estrutural. Na cabeça distorcida dessas figuras, o desvio de finalidade só é crime quando praticado pelos seus adversários ideológicos. Quando são eles a assaltar o erário, vira “articulação política” ou “direito de governar”.
O preço do cinismo: Cada centavo que caiu na conta de um fantasma que nunca passou por uma catraca ou fez um login no sistema é um remédio a menos nas UPAs, uma viatura a menos nas ruas e uma escola a menos em tempo integral. A corrupção mata, e quem aceita um cargo fantasma é cúmplice direto dessa barbárie.
​O Fim do Palco
​Para o Canal Língua Solta, o compromisso com a verdade não escolhe lado, padrinho ou legenda. A faxina promovida pela auditoria atual é pedagógica: mostra que a blindagem política tem prazo de validade.
​A “cidadania” de fachada que se alimenta nas sombras das repartições públicas merece o rigor da lei, o confisco dos bens e o eterno desprezo público. Chegou a hora de parar de ouvir o que esses falsos profetas da moralidade dizem nos palanques e começar a revirar o que eles escondem nos bastidores. O Rio de Janeiro cansou de ser o laboratório da impunidade, e o cidadão de verdade cansou de pagar a conta de quem nem sequer aparece para trabalhar.
​A cortina do teatro caiu. E os fantasmas, finalmente, estão sendo exorcizados.