​A Costura da Ancestralidade: Como o Figurino de “A Nobreza do Amor” Redefine a Estética da Teledramaturgia​ Por Mayka Wogue Canal Língua Solta

Arte Curiosidades Variedades

​Mais do que vestir personagens, o figurino de A Nobreza do Amor é um tratado antropológico visual. Sob a batuta da figurinista Marie Salles, a produção não apenas conta uma história: ela a traduz através de fios, grafismos e uma “matemática” do vestuário que eleva o padrão das produções brasileiras a um nível de excelência internacional.
​Com um acervo colossal de 4 mil peças e o uso de técnicas que misturam o luxo ancestral ao realismo histórico dos anos 1920, a novela é um convite ao deslumbre. Mas o que há por trás das cores vibrantes e dos brilhos que vemos na tela?
O Reino de Batanga: Onde o Ouro Encontra o Sagrado
​A criação do reino fictício de Batanga foi um exercício profundo de imersão. Com a consultoria estratégica de especialistas como Maurício Camillo e Márcio de Jagun, a equipe evitou clichês para mergulhar na herança iorubá, ashanti, bantu, zulu e masai.
​O destaque fica para a “matemática das estampas”: nada é puramente decorativo. Cada grafismo desenvolvido em tear comunica status, linhagem e força moral. O uso de técnicas tradicionais como o Aso Oke e o Shiburi, combinado ao toque de fábula — que inclui até o uso de pó de ouro real em vestimentas da realeza —, confere uma aura divina à linhagem de Alika (Duda Santos) e da Rainha Niara (Erika Januza).
​A Dualidade Visual: Entre a Majestade e a Sobrevivência
​A transição narrativa de Alika, da realeza de Batanga para o Rio de Janeiro dos anos 1920, é o grande triunfo de Marie Salles. No Brasil, o figurino de “melindrosa” ganha uma nova camada: a resistência.
​Enquanto a elite carioca se vestia em tons de bege e azul, Alika mantém o vermelho e o dourado em pequenos detalhes — forros, lenços, bordados. É o seu elo inquebrável com a ancestralidade. Enquanto a moda da época ditava o corte bob liso, Alika defende sua identidade com penteados baseados no Afrovisagismo, adaptando o crespo e as tranças nagô às silhuetas da década de 20 com elegância impecável.

O Poder da Simbologia: Adinkras e o Legado de Xangô
​A novela se transforma em uma aula de história ao integrar ideogramas Adinkra aos trajes:
​Sankofa: O pássaro que olha para trás, lembrando-nos que o futuro é construído sobre o passado.
​Denkyem (Crocodilo): A chave para a sobrevivência de Alika, simbolizando a adaptabilidade necessária para navegar entre mundos tão distintos.

O contraste psicológico também é evidente no vilão Jendal (Lázaro Ramos). Enquanto a realeza legítima irradia a luz solar e o vermelho de Xangô, Jendal é revestido por tons de cobre e preto, com acessórios — como suas perucas estruturadas que remetem a serpentes — que pesam sobre o ator, transmitindo a rigidez e o medo que sustentam seu poder ilegítimo.


​Além da Tela: O Legado Fashion
​O sucesso foi tamanho que o impacto ultrapassou a TV, culminando em um desfile exclusivo na Rio Fashion Week.

Ao valorizar marcas autorais brasileiras, como a baiana Dua e as colaborações da Verkko com Awa Conceito, A Nobreza do Amor se consolida como um marco da moda afro-brasileira.
​Marie Salles nos ensina que figurino é, acima de tudo, identidade. Em um mundo que muitas vezes busca apagar trajetórias, a “Nobreza do Amor” usa a agulha e a linha para afirmar: a coroa pode ser invisível aos olhos do Brasil dos anos 20, mas, para quem sabe olhar, ela brilha com a força de um reino inteiro.
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