
O Brasil vive hoje um momento de encruzilhada que pode definir nossa independência tecnológica e econômica para as próximas décadas. A venda da mineradora brasileira Serra Verde, em Minaçu (GO), para a norte-americana USA Rare Earth (USAR), por cerca de US$ 14 bilhões, não é apenas um negócio comercial. É, na prática, a entrega do controle sobre os recursos mais estratégicos do planeta para uma potência estrangeira.
Enquanto o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e setores da direita celebram a entrada de capital, a pergunta que ecoa entre quem defende a soberania nacional é uma só: quem está realmente ganhando com isso?
O Ouro do Século XXI
As terras raras — como o neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — são as “vitaminas” da indústria moderna. Sem elas, não há transição energética (carros elétricos, turbinas eólicas) nem defesa nacional (caças, radares e mísseis).
O Brasil, que detém a segunda maior reserva mundial (cerca de 23% do total global), tem em mãos um potencial que, se explorado e processado nacionalmente, poderia valer quase duas vezes o nosso PIB. No entanto, o que vemos? A manutenção do papel de eterno exportador de matéria-prima, enquanto o conhecimento tecnológico e o poder geopolítico ficam concentrados nas mãos de estrangeiros.
A Batalha na PGR
Em abril de 2026, a movimentação parlamentar — encabeçada por nomes como Sâmia Bomfim, Glauber Braga, Fernanda Melchionna e Orlando Silva — acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR). O pedido de investigação é claro: há uma clara ameaça à soberania nacional.
A dúvida que paira sobre a Agência Nacional de Mineração (ANM) e sobre a própria atuação do governo estadual de Goiás é se houve uma extrapolação de competência. Estamos cedendo ativos críticos que deveriam compor um projeto de nação, não um balcão de negócios para atender aos interesses militares e tecnológicos dos Estados Unidos.
O Risco de um “Novo Pré-Sal”
A história nos ensina, e o trauma das privatizações do governo Temer está fresco na memória. Quando abrimos mão da integração vertical — o domínio desde a extração até o refino — tornamo-nos reféns de uma cadeia produtiva que não controla a nossa economia. Ao permitir que a USAR controle desde a mina até a fabricação do ímã, o Brasil abdica de ser um protagonista industrial.
O desafio de 2027
Com a meta da mina de Pela Ema de saltar de 100 para 6.400 toneladas anuais até 2027, o tempo está correndo. Se o Brasil não assumir o domínio da tecnologia de separação e refino, continuaremos sendo apenas o quintal rico de minérios, enquanto outros ditam o ritmo do nosso desenvolvimento.
A pergunta que deixo para nossos leitores é: até quando permitiremos que nossas riquezas estratégicas sejam entregues como se fossem um “complexo de vira-latas” institucionalizado? A soberania não tem preço, mas o custo da nossa omissão pode ser impagável.
Nota editorial: O Canal Língua Solta segue acompanhando o desenrolar desta representação junto à PGR e manterá o debate sobre a mineração estratégica em pauta. O Brasil precisa de projeto, não de leilão.
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