
Casamento de Mayka Wogue 2020. A memória é uma ferramenta de resistência. Ao relembrarmos o 5 de maio de 2011, não celebramos apenas um acórdão jurídico do Supremo Tribunal Federal (STF); reverenciamos a sobrevivência de milhares de casais que, até então, existiam em um limbo legal. O reconhecimento das uniões homoafetivas como entidades familiares foi o golpe final em uma era onde o afeto era confiscado pelo Estado e o patrimônio de uma vida inteira era saqueado por famílias biológicas que, muitas vezes, só apareciam na hora da partilha.
Os relatos de ativistas como Claudio Nascimento e Luiz Carlos de Freitas são cicatrizes expostas de um período em que o luto vinha acompanhado do despejo e da desonra. Era preciso “burocratizar o amor” com testamentos e seguros apenas para garantir que o companheiro ou companheira tivesse o direito de permanecer na própria casa. Estamos vendo isso hoje, com o Império das Casas Pernambucanas.
A Luta que Muda de Rosto, mas Não Para
Embora o avanço de 2011 tenha pavimentado o caminho para o casamento civil em 2013, o Brasil ainda ostenta estatísticas contraditórias. Somos o país que permite o casamento, mas que também lidera rankings de violência contra corpos LGBTQIAPN+. Para quem está na linha de frente — seja no ativismo de base ou no comando de veículos de comunicação — a proteção jurídica é apenas uma das camadas dessa blindagem.
Ocupar espaços de decisão, como a chefia de redação deste portal de notícias, sendo uma mulher trans, é um ato político por natureza. É a garantia de que a notícia terá o peso da vivência e a coragem da denúncia, especialmente quando figuras públicas e o próprio Estado tentam retroceder o relógio da história.

O Inadmissível: Quando o Ódio Vira Palanque
Não basta que o STF reconheça nossos direitos se a cultura do ódio continua sendo alimentada em sets de gravação e gabinetes governamentais. É inadmissível que figuras de grande alcance mediático utilizem sua influência para propagar falas carregadas de preconceito, tentando invalidar a existência de pessoas trans e a pluralidade das famílias brasileiras.
Ainda mais grave é quando o preconceito se traveste de lei. Recentemente, assistimos a episódios de populismo legislativo onde governadores sancionaram leis inconstitucionais — como a proibição de mulheres trans de utilizarem banheiros femininos. Tais medidas não são apenas juridicamente nulas perante o entendimento do STF; são tentativas de marginalização e humilhação pública que ignoram a dignidade da pessoa humana.
O Compromisso do Língua Solta
Apesar da segurança jurídica conquistada, os desafios contemporâneos exigem vigilância sobre:
Direito à Identidade: O acesso desburocratizado à retificação de prenome e gênero.
Segurança Pública: A criminalização da LGBTfobia precisa sair do papel para se tornar realidade nas delegacias.
Combate à Desinformação: Desmascarar “pânicos morais” criados por políticos para desviar o foco de problemas administrativos reais.
A história do canallinguasolta.com se mistura com essa cronologia de direitos. Se hoje podemos falar abertamente sobre sucessão patrimonial, é porque vozes antes silenciadas decidiram que o silêncio não era mais uma opção. A justiça de 2011 foi um marco, mas o editorial de hoje é um compromisso: a nossa caneta é uma arma de defesa. Enquanto houver quem tente nos empurrar de volta para o limbo, haverá este portal para lembrar que o Brasil é, por direito e por luta, também o nosso lugar.
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