FAKE NEWS, O Mercado do Absurdo e o Silêncio Cúmplice das Instituições

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Ano Eleitoral os insanos vão surtar Por: Mayka Wogue / Canal Língua Solta O debate público brasileiro foi transformado, nos últimos anos, em um picadeiro de bizarrices onde a mentira não é apenas um deslize, mas um modelo de negócios altamente lucrativo e um projeto de poder. Quando figuras públicas e setores que se autodenominam “imprensa” se tornam os principais vetores de fábulas grotescas, a democracia deixa de debater ideias e passa a gerenciar surtos coletivos.
​Não estamos mais falando de divergências políticas legítimas. Estamos falando da industrialização da paranoia.
​A Galeria do Delírio Coletivo
​Para compreender a gravidade do cenário, é preciso dar nome aos monstros criados por essa máquina de moer a verdade. O cardápio de mentiras que paralisou o país nos últimos anos transita entre o pânico moral infantil e o terrorismo tecnológico:
O Pânico Moral como Cortina de Fumaça: A invenção do fictício “Kit Gay” e de mamadeiras com formatos obscenos inaugurou uma era onde a proteção da infância é sequestrada para fins eleitorais. Anos depois, o mesmo método importou as teorias conspiratórias do QAnon norte-americano, criando redes invisíveis de crimes transnacionais e histórias absurdas sobre cartilhas estrangeiras de masturbação infantil para inflamar o eleitorado pelo estômago.
​O Sabotamento da Saúde Pública: No auge da maior crise sanitária do século, a máquina operou contra a sobrevivência da população. Propagou-se que vacinas de RNA mensageiro causavam mutações reptilianas, continham microchips de rastreamento 5G ou transmitiam o vírus da AIDS. O negacionismo foi tão profundo que transformou um recall técnico de detergentes contaminados por bactérias em “perseguição ideológica”, levando pessoas a ingerirem produtos de limpeza em nome de uma suposta resistência patriótica.
​A Estética da Ignorância Digital: O ápice do ridículo se materializou na manipulação de imagens de celebridades internacionais para um público deliberadamente mantido na ignorância digital. Transformaram a vocalista do ABBA em uma juíza sueca fictícia, a cantora Lady Gaga em uma ministra de Haia e a ex-atriz pornô Mia Khalifa em uma diretora de comitê antifraude. Tudo isso para sustentar o delírio golpista das “72 horas” e de um código-fonte fraudado que nunca existiu.
​O Terrorismo Econômico: O medo do confisco e da miséria foi alimentado sistematicamente com mentiras sobre o fim do PIX, taxação total de transferências entre pessoas físicas e a proibição de aplicativos de transporte. Narrativas desenhadas para gerar instabilidade financeira e pânico na classe trabalhadora.
​O Crime da Desinformação no Topo da Pirâmide
​O ponto de inflexão mais perigoso ocorre quando a mentira perde o caráter amador das correntes de WhatsApp e ganha o verniz de autoridade. A desinformação atinge seu potencial destrutivo máximo quando é proferida por políticos com mandato e ecoada por veículos de comunicação mascarados de jornalismo.
​Quando um parlamentar utiliza a tribuna para espalhar um delírio conspiratório, ele não está exercendo sua liberdade de expressão; ele está violando o decoro, traindo o pacto constitucional e utilizando recursos públicos para sabotar o Estado que o remunera.
​Da mesma forma, emissoras de rádio, canais de TV e portais que abandonam a checagem básica em nome do engajamento financeiro e ideológico não fazem imprensa; fazem panfletagem criminosa. A cumplicidade desses atores cria uma assimetria perversa: enquanto a mentira viaja na velocidade de um clique e destrói reputações, instituições e políticas de saúde, a verdade caminha a passos lentos, burocráticos e, muitas vezes, invisíveis para a bolha radicalizada. VAMOS LEMBRAR ALGUMAS DAS GRANDES MENTIRAS PARA SE CHEGAR AO PODER NOS ÚLTIMOS 8 ANOS. O “Kit Gay” e a “Mamadeira de Piroca”
A mentira: Durante a eleição de 2018, viralizou a acusação de que o candidato Fernando Haddad distribuiria nas escolas públicas materiais com teor sexual explícito e mamadeiras com bicos em formato de pênis para “erotizar crianças”.
A realidade: O material citado nunca existiu nas escolas. O que de fato houve, anos antes, foi o projeto pedagógico “Escola sem Homofobia”, formulado por ONGs e pelo Ministério da Educação (MEC) para combater o preconceito, mas que foi vetado em 2011 pelo próprio governo federal antes de ser impresso ou distribuído.
O Chip da Vacina e Efeitos Mutagênicos (COVID-19)
A mentira: No auge da pandemia, influenciadores e políticos afirmavam que as vacinas de RNA mensageiro contra a COVID-19 alteravam o DNA humano, causavam o desenvolvimento de características reptilianas (como “virar jacaré”), continham chips de rastreamento 5G desenvolvidos pela China ou causavam AIDS.
A realidade: As vacinas foram rigorosamente testadas, aprovadas por órgãos como a Anvisa e a Organização Mundial da Saúde (OMS), e não têm qualquer capacidade de modificar o genoma humano ou carregar componentes eletrônicos.
Mamíferos em risco: A farsa do Detergente Ypê
A mentira: Em uma manifestação bizarra de guerra cultural e desconfiança de órgãos reguladores, influenciadores bolsonaristas começaram a gravar vídeos ingerindo sabão e lavando alimentos com produtos de limpeza. Eles alegavam que o recolhimento de lotes específicos do produto pela Anvisa por contaminação bacteriana era uma “perseguição ideológica” do governo ao agronegócio ou a empresas nacionais.
A realidade: A Anvisa realizou testes laboratoriais de rotina que constataram riscos reais de contaminação bacteriana em lotes específicos da marca. Ingerir ou usar o sabão contaminado deliberadamente representa um grave perigo à saúde.
Invasão Comunista via “Banheiros Unissex” obrigatórios
A mentira: Narrativas espalhadas em redes sociais apontavam que decretos do governo federal obrigariam todas as escolas, comércios e igrejas do Brasil a extinguirem os banheiros masculinos e femininos, fundindo-os em um único espaço unissex obrigatório para “destruir a família tradicional”.
A realidade: O governo federal e o Ministério da Educação nunca emitiram tal ordem. O que existiram foram resoluções técnicas isoladas recomendando o respeito ao uso de banheiros por pessoas trans conforme sua identidade de gênero, sem qualquer extinção das estruturas biológicas tradicionais.
Fraude das Urnas Eletrônicas e o “Código-Fonte”
A mentira: Canais de YouTube e redes de mensagens lucraram milhões de reais sustentando que as eleições brasileiras de 2022 haviam sido fraudadas eletronicamente. Afirmavam que o “código-fonte” continha um algoritmo secreto para desviar votos e que as Forças Armadas haviam descoberto a fraude, bastando “72 horas” de protestos para intervenção militar.
A realidade: O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abriu o código-fonte para auditoria pública de diversos partidos, universidades e das próprias Forças Armadas com um ano de antecedência. Nenhum relatório técnico, incluindo o do Ministério da Defesa, apontou indício de fraude ou adulteração nas urnas eletrônicas.
O confisco da propriedade privada (Fim do PIX e do Uber)
A mentira: Mensagens alarmistas espalhadas sistematicamente afirmavam que novas regulamentações fiscais iriam acabar com a gratuidade do PIX, taxando todas as transferências de pessoas físicas, além de banir aplicativos de transporte como Uber e 99 do Brasil.
A realidade: O Banco Central do Brasil manteve a gratuidade do PIX para pessoas físicas. Os projetos de regulamentação do trabalho por aplicativos visavam apenas garantir direitos previdenciários básicos aos motoristas parceiros, sem prever o banimento das plataformas do território nacional. A Falsa Juíza Sueca (Agnetha Fältskog, do ABBA) Essa é, sem dúvida, uma das mentiras mais surreais e emblemáticas daquele período pós-eleições de 2022. Na verdade, houve uma mistura de duas narrativas falsas criadas por correntes de desinformação da extrema-direita, que uniram a cantora do ABBA ao Tribunal de Haia:
A mentira: Vídeos em redes sociais e grupos de mensagens mostravam uma senhora loira dando uma entrevista. Uma legenda totalmente inventada em português dizia que ela era “Anna Åse“, uma renomada juíza sueca. O texto inventado afirmava que ela considerava “duvidoso um presidente tão popular não se reeleger” e colocava o sistema eleitoral sob suspeita.
A realidade: A mulher no vídeo era Agnetha Fältskog, vocalista do lendário grupo pop sueco ABBA. O trecho foi retirado de uma entrevista de 2013 dada a um canal de televisão (programa Skavlan), na qual a artista falava estritamente sobre sua vida, sua carreira musical e o retorno aos estúdios de gravação, sem nenhuma menção à política do Brasil.
O Tribunal de Haia (A fusão com Lady Gaga e Mia Khalifa)
A menção ao Tribunal de Haia costuma aparecer conectada a esse ecossistema de desinformação por conta de outras montagens que circularam ao mesmo tempo:
Lady Gaga como Ministra: Circulou uma imagem da cantora pop Lady Gaga identificada como a ministra do Tribunal de Haia “Stefani Germanotta” (que na verdade é o nome real de batismo da artista). A mentira afirmava que ela estava em reuniões secretas para decretar uma intervenção no Brasil.
Mia Khalifa como Diretora: Outra imagem de destaque usava a foto da ex-atriz pornô Mia Khalifa afirmando que ela seria a diretora de um suposto “departamento antifraude” do próprio Tribunal de Haia, sob o pseudônimo de “Igrad Gaak”.
Meninas que “não usam calcinha” porque são pobres
Em 2019, logo no início de sua gestão como ministra, Damares fez outra declaração polêmica sobre o Pará.
A mentira: Afirmou que descobriu que as meninas do Marajó eram estupradas porque “não usavam calcinha, por serem muito pobres”, e propôs como solução governamental a doação e fábricas de calcinhas na ilha.
O fato: A declaração foi amplamente criticada por especialistas em assistência social por reduzir um problema estrutural e complexo (como a falta de saneamento, pobreza extrema e isolamento geográfico) ao uso de uma peça de roupa, além de culpabilizar indiretamente as vítimas pela violência sofrida.
As narrativas absurdas propagadas por Damares Alves são apontadas por organizações de direitos humanos, como o Observatório do Marajó, como um grande desserviço: além de estigmatizar negativamente o povo marajoara, elas atrapalham o combate à exploração sexual real ao gerar descrédito sobre denúncias verdadeiras. HOLANDESES E HAVAIANOS MASTURBAM BEBÊS
Em uma palestra gravada em 2013 na Primeira Igreja Batista de Campo Grande, Damares Alves (então pastora e assessora parlamentar) afirmou que, na Holanda e no Havaí, especialistas distribuíam cartilhas ensinando os pais a masturbarem bebês a partir dos sete meses de idade.
A checagem: Agências de verificação de fatos e a imprensa internacional comprovaram que não existem tais cartilhas nem diretrizes oficiais nesses locais estimulando a prática.
Repercussão: O vídeo antigo viralizou em janeiro de 2019, logo após ela assumir o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. O caso repercutiu negativamente nos principais jornais dos Países Baixos, gerando forte indignação pública na Holanda pela falsidade das acusações. A tese importada do QAnon (EUA)
Especialistas e agências de checagem identificaram a origem dos discursos bizarros de Damares.
A mentira: Criar teorias conspiratórias globais envolvendo redes ocultas de elite que traficam e mutilam crianças sistematicamente.
O fato: Trata-se de uma cópia direta da teoria da conspiração norte-americana QAnon, muito utilizada pela extrema-direita dos Estados Unidos para gerar pânico moral, desviar o foco de problemas reais e inflamar bases eleitorais através do medo. O Combate Necessário: Responsabilização Já
​Tratar a desinformação profissional como “liberdade de opinião” é o primeiro passo para o suicídio democrático. O combate a esse ecossistema não é uma escolha ideológica, é uma medida de autodefesa da sociedade.

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