
Se o Barão de Itararé estivesse vivo, ele diria que a política brasileira não é para amadores, mas, às vezes, é feita por profissionais do autogolpe. O mais recente capítulo da nossa comédia institucional traz o deputado Mário Frias (PL-SP) inovando no direito processual civil ao criar uma nova modalidade jurídica: a autointimação via textão.
A história parecia um roteiro clássico de esconde-esconde burocrático. O STF queria saber por que R$ 2 milhões em emendas parlamentares foram parar em uma ONG ligada a um documentário sobre Jair Bolsonaro. O oficial de justiça bate na porta da Câmara: nada. Procura nos endereços oficiais: ninguém. Onde está o deputado? No Bahrein.
Até aí, tudo normal no manual do “se eu não assinar, eu não sei”. O ministro Flávio Dino, então, aperta o cerco e dá 48 horas para a Câmara explicar quem pagou a passagem para as arábias. É nesse momento que o instinto de ex-galã de TV fala mais alto que o pragmatismo político.
Sentindo o peso dos holofotes, o deputado decide ir à rede social X para fazer o que todo político moderno faz: criar narrativa. Posta que vai voltar ao Brasil e desafia Dino para um “encontro ao vivo”.
O Erro de Cálculo: O “Print” é Eterno
O que Mário Frias achou que estava fazendo:
”Vou lacrar na rede, chamá-lo para o debate e mostrar que não tenho medo.”
O que Flávio Dino leu:
”Excelentíssimo Ministro, confirmo por meio deste tuíte que li as notícias, sei exatamente do que se trata o processo e estou formalmente ciente de que o senhor me procura. Segue minha assinatura digital.”
Com a agilidade de um tuiteiro veterano e a frieza de quem conhece o código de processo penal, Dino apenas pegou o print, anexou aos autos e despachou: “Obrigado pelo aviso, deputado. Considero-me notificado. Passar bem e não precisa vir aqui não, tá?”
A Sagacidade da Toga
A jogada de Dino foi de uma simplicidade cirúrgica. Ao aceitar o tuíte como intimação válida, o ministro conseguiu três coisas de uma vez só:
Economizou o combustível do oficial de justiça.
Cortou as asas do “palanque político”, deixando claro que o STF não é estúdio de podcast para receber deputado e ator decadente para “conversa ao vivo”.
Usou a própria arma do adversário. Na era do tribunal da internet, Dino aplicou a “jurisprudência do clique”.
Mário Frias, que passou a carreira decorando falas, esqueceu-se de que, no teatro do Judiciário, improvisar nas redes sociais pode custar caro. Ele queria um encontro cara a cara, mas acabou levando um “visto por último” que vale por um mandado judicial.
Fica a lição para a posteridade da nossa República: se a Justiça estiver te procurando, resista à tentação de postar um stories. No xadrez de Brasília, quem muito se expõe na rede acaba virando peça capturada — e com direito a selo de verificado.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad

