Mictório Público a Céu Aberto: O Cruzamento da Senilidade com o Abandono

Curiosidades Variedades

Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com Plena tarde no cruzamento das ruas Dr. Jorge Xavier da Silva e Benjamin Constant. O vaivém de pedestres é intenso, o comércio ferve, mães passam com filhos saindo da escola. É o cenário perfeito para um flagrante da mais pura degradação urbana: um idoso, sem qualquer cerimônia, abre a braguilha e esvazia a bexiga à vista de quem quiser — ou não quiser — ver.
​Diante de uma cena dessas, a indignação é imediata, legítima e violenta. O cidadão que paga seus impostos e tenta manter um mínimo de decência é obrigado a desviar os olhos da genital e jato alheio. A pergunta que ecoa no asfalto quente é uma só: o que passa pela cabeça de alguém para transformar uma das esquinas mais movimentadas da cidade em um mictório particular?
​As respostas flutuam entre o crime, a garrafa e o descaso.
​Se falamos de um jovem ou de um marmanjo qualquer, o diagnóstico é unânime: falta de vergonha na cara, molecagem e crime de importunação sexual ou ato obsceno. Cadeia ou, no mínimo, o rigor da lei. Mas quando o personagem principal é um homem na terceira idade, o tribunal das calçadas se divide em um malabarismo de justificativas e panos quentes.
​Estaria ele alcoolizado? É o mais provável, a julgar pela lata de cerveja apoiada no carro. A cachaça de fim de tarde que anestesia o pudor e a noção de ridículo. Ou estaríamos diante da conveniência da senilidade? É muito fácil blindar o idoso sob o manto da “caduquice”, fingindo que a idade avançada anula o Código Penal e o respeito básico pelo espaço comum.

Ter cabelos brancos não é salvo-conduto para a barbárie. Se há maturidade para viver em sociedade, tem que haver maturidade para segurar a urina até encontrar um local adequado. O respeito que a terceira idade tanto exige deve ser o mesmo que ela entrega.
​Por outro lado, o riacho que escorre pelo meio-fio da Dr. Jorge Xavier escancara outra realidade igualmente podre: a negligência crônica do poder público.
​Onde estão os banheiros públicos dessa cidade? Onde o cidadão — seja ele um idoso com incontinência urinária, um trabalhador de rua ou um turista — pode aliviar suas necessidades básicas com o mínimo de dignidade? Praticamente em lugar nenhum. Para o comércio local, o pedestre apertado é um estorvo; para a prefeitura, ele simplesmente não existe do umbigo para baixo. A falta de estrutura transforma o espaço urbano em um salve-se-quem-puder higiênico.
​O episódio vergonhoso no cruzamento não é um fato isolado, é o sintoma de uma sociedade que falha em todas as frentes. Falha o idoso, que enterra a própria dignidade na calçada e ignora a lei do atentado ao pudor. Falha a fiscalização, que assiste a tudo de braços cruzados. E falha, miseravelmente, o poder público, que cobra impostos de primeiro mundo, mas não é capaz de entregar um banheiro limpo para evitar que suas esquinas virem latrinas.
​No fim das contas, quem sai banhado em desrespeito é o cidadão, obrigado a desviar das poças de urina e da impunidade que escorrem a céu aberto.

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