
Por Mayka Wogue / canallinguasolta / Imagens IA O submundo das redes sociais na política brasileira atingiu um nível de saturação onde nem os seus mais aplicados arquitetos estão a salvo. O recente linchamento virtual sofrido pela senadora Damares Alves e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — emparedadas e humilhadas publicamente por influenciadores e milícias digitais da própria extrema-direita — é um espetáculo de ironia fina e macabra. O tribunal da internet, que elas tantas vezes abasteceram com lenha e fofoca conspiratória, resolveu finalmente provar da carne de suas criadoras.
Para quem assiste de fora, a mudança brusca de postura de ambas é quase patética. Aquelas que outrora marchavam sorridentes à frente de hordas digitais em busca de cabeças adversárias, agora sobem à tribuna do Senado e aos altares partidários com a voz embargada, implorando por “ética”, “respeito” e “limites no debate público”. A hipocrisia, quando exposta sob a luz do dia, queima.

A Amnésia Conveniente do Gabinete do Ódio
É preciso refrescar a memória de Damares e Michelle, duas figuras que parecem sofrer de amnésia crônica desde que o “fogo amigo” começou a queimar seus respectivos calcanhares. O discurso mudou porque a dor mudou de endereço.
Michelle Bolsonaro, que hoje reclama da agressividade de perfis de fofoca política e das investidas contra sua honra, passou anos validando, por meio do silêncio cúmplice ou de sorrisos complacentes, a máquina de triturar reputações que operava a partir do próprio Palácio do Planalto. O ecossistema que atacava jornalistas mulheres, insultava oponentes com termos chulos e promovia o assassinato de reputação de qualquer um que ousasse discordar da cartilha da família/quadrilha era aplaudido. Enquanto a metralhadora giratória apontava para a esquerda, para o centro ou para o Judiciário, o método era considerado “liberdade de expressão”. Agora que a mesma metralhadora deu um giro de 180 graus, virou “crueldade e perseguição”.
Do Topo do Palanque à Confissão na Tribuna: O Ódio Financiado pela Própria Direita
No caso de Damares Alves, o cinismo alcança o topo do pódio e escancara o desespero. Ver a senadora ocupar o espaço solene da tribuna do Senado para implorar, publicamente, que a direita pare de atacá-la, exige do cidadão brasileiro um estômago de aço.
O ápice de sua fala revelou o tamanho da fratura interna: a ex-ministra foi ao microfone admitir textualmente que os ataques sórdidos à sua honra e à sua imagem são orquestrados, produzidos e financiados por setores e influenciadores da própria direita. O pedido de trégua aos seus antigos aliados não é um ato de grandeza política; é a confissão explícita de que a criatura fugiu ao controle e de que o “gabinete do ódio” mudou de alvo, mas manteve os mesmos financiadores de sempre. Damares agora se vê acuada pela estrutura financeira e tecnológica que antes blindava o seu grupo político.
A ex-ministra construiu sua relevância pública e sua base eleitoral em cima do linchamento social e psicológico de terceiros. Como esquecer o episódio mais sombrio de sua gestão, quando a máquina de seu ministério foi mobilizada nos bastidores para expor, constranger e tentar impedir o aborto legal de uma menina de apenas 10 anos, grávida após sofrer anos de estupro pelo tio?
Naquela ocasião, o vazamento de dados e o cerco moral promovido por extremistas na porta do hospital — que chamavam uma criança traumatizada de “assassina” — tiveram a assinatura ideológica e o incentivo do grupo que Damares criminosamente liderava e financiava com dinheiro público. Ela nunca teve pudor em jogar minorias, oponentes políticos e mulheres vulneráveis aos leões do linchamento virtual. O sofrimento alheio era o combustível de sua máquina de engajamento. Agora, ao ver o dinheiro e a estrutura dessa mesma máquina voltados contra si e sua filha, corre para o Parlamento para denunciar as engrenagens de destruição que ela própria ajudou a legitimar. (CONTINUA APÓS PUBLICIDADE)

A Misoginia Não Dá Anistia Ideológica
Os ataques desferidos contra Michelle e Damares nos últimos meses apelam para o machismo mais rasteiro, com calúnias de teor sexual, invasão de privacidade e desqualificação intelectual. Essa violência política de gênero deve ser repudiada e combatida com o rigor da lei, pois validar o machismo contra uma oponente é autorizá-lo contra todas as mulheres.
No entanto, repudiar a agressão não nos obriga a absolver as vítimas de sua responsabilidade histórica. Michelle e Damares estão descobrindo, da pior maneira possível, que o extremismo não possui lealdade. O monstro da intolerância que elas alimentaram com tanto zelo não tem ideologia de estimação; ele tem apenas fome.
Ao chorarem as lágrimas do “fogo amigo” e confessarem em público que a própria direita financia a máquina de difamação que hoje as tritura, as duas lideranças dão um testemunho definitivo de que a indústria do ódio não poupa ninguém — nem mesmo quem lhe deu vida. É a colheita inevitável de quem passou anos semeando o vento da destruição, e agora colhe os furacão de ruína moral. O localhost/blog_default/wordpress/, repudia todo e qualquer ataque, mesmo que virtual, toda forma de misoginia, independente se o alvo seja de direita ou esquerda, sim, repudiamos os ataques, mas não esquecemos o passado negro, criminoso e medíocre das atuais vitimas de seus próprios monstros.


