
O nativo foi assassinado, o francês, apenas transferido para seu país. Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com / Imagens IAMW Em 1612, a tentativa francesa de consolidar a França Equinocial na ilha de Upaon-Açu (atual São Luís do Maranhão) colocou em rota de colisão dois mundos opostos. De um lado, a falsa moralidade cristã europeia; do outro, os povos Tupinambás, que viviam a sexualidade sem os dogmas e tabus da Europa quinhentista.
Nesse cenário, homens que se relacionavam com outros homens eram respeitados em sua comunidade. O termo “Tibira” era utilizado para designar essa vivência. Um jovem indígena guerreiro, perfeitamente integrado ao seu povo, acabou chamando a atenção de um oficial francês nas imediações do forte recém-construído.
A Hipocrisia do “Finja que não é, que fingimos que não vemos”
O relacionamento floresceu nas matas locais, mas não passou despercebido pelos olhos do frade capuchinho Yves d’Évreux. Quando o caso veio à tona, a hierarquia colonial deixou transparecer uma tática de dupla moral que se perpetua até os dias de hoje: a vista grossa seletiva e a regra velada do “finja que não é, que fingimos que não vemos”.
O peso da lei e da moralidade nunca incidiu da mesma forma sobre todos:
A vista grossa ao europeu: O oficial francês, amparado por seu prestígio e linhagem, teve sua conduta acobertada. Foi discretamente enviado de volta à França sob o pretexto de missões na corte — mantendo sua reputação intacta, desde que o vício continuasse longe dos olhos do público.
A punição exemplar ao indígena: O jovem Tibira, por não se adequar à encenação da moralidade imposta, foi transformado em bode expiatório, caçado e levado a um tribunal improvisado sob o pretexto de evitar “maldições” sobre a colônia.
A barbárie em praça pública (1614)
Para a mentalidade inquisitorial da época, era necessário um espetáculo de crueldade que punisse a recusa em se esconder:
O batismo forçado: Tibira foi batizado no alto do baluarte do forte sob o argumento de “salvar sua alma”.
A amarração ao canhão: Logo após o ritual, foi amarrado pela cintura diretamente à boca de um imenso canhão de bronze voltado para o oceano.
A execução: Sob orações em latim e o terror dos indígenas que assistiam, o pavio foi aceso. O disparo pulverizou o corpo do jovem, atirando seus restos mortais ao mar.
A contradição que atravessa os séculos: Consumo no privado, violência no público
A execução de Tibira em 1614 não é um fato isolado no passado, mas o prenúncio de uma engrenagem que opera com força no Brasil contemporâneo. O mesmo país que condenava e punia o indígena enquanto protegia o oficial às escondidas perpetua, até hoje, uma das maiores contradições sociais do mundo:
Liderança no consumo de conteúdo adulto Relatórios anuais das maiores plataformas globais de conteúdo adulto mostram recorrentemente o Brasil no topo dos rankings de buscas por pornografia gay e trans. A atração e o desejo existem no consumo privado, protegido pelo anonimato das telas.
Campeão em violência letal No ambiente público, a mesma sociedade que consome essa sexualidade na intimidade assume uma postura moralista e violenta. Dados de entidades como o Grupo Gay da Bahia (GGB) e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) apontam o Brasil como o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, com uma morte violenta registrada a cada poucas horas.
Trata-se do desdobramento direto do mesmo dogma colonial: o desejo é tolerado desde que fetichizado e mantido na obscuridade, mas a existência livre, visível e com direitos é punida com a morte.
A luta de Luiz Mott e a proposta de “Sancto Tibira”
A história de Tibira teria ficado soterrada no passado se não fosse a atuação incansável do antropólogo, historiador e fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott. Foi Mott quem resgatou o documento de Yves d’Évreux e deu projeção nacional ao caso, classificando Tibira como o primeiro mártir da LGBTQIAPN+fobia nas Américas.
Indo além do resgate histórico, Luiz Mott iniciou uma campanha pela canonização de Tibira junto ao Vaticano:
Argumento do martírio: Como Tibira foi forçado a se batizar momentos antes de ser executado “para purificação do pecado”, Mott argumenta que ele morreu sob o signo do próprio dogma cristão, vítima da violência e da intolerância religiosa e moral.
Reparação histórica e teológica: A proposta de transformá-lo em “Sancto Tibira” desafia a estrutura religiosa a reconhecer os crimes cometidos em nome do dogma colonial, usando a figura do indígena executado como um símbolo universal de santidade para as vítimas de preconceito.

O resgate da memória e o legado de resistência
Os relatos detalhados de Yves d’Évreux visavam registrar um ato de “justiça moral”, mas acabaram imortalizando o primeiro registro documentado de intolerância homofóbica no Brasil. O caso expõe como o pacto de silêncio e o preconceito institucionalizado sempre perdoaram a dissimulação enquanto puniam violentamente a existência visível.
Com a expulsão dos franceses em 1615, a história permaneceu oculta até a tradução do texto para o português em 1864 e o posterior trabalho de difusão liderado por Luiz Mott. Em 2014 — exatos 400 anos após a execução —, a memória do guerreiro foi oficialmente resgatada com a instalação de um monumento na Praia Grande, no Centro Histórico de São Luís.
Embora episódios semelhantes devam ter ocorrido sob o domínio português antes de 1614, os registros dos capuchinhos e a militância historiográfica transformaram Tibira no marco zero da documentação contra a LGBTfobia no país.


