TRIBUTO: O ADEUS À MESTRA LAURA CARDOSO, A MAIOR DAMA DA DRAMATURGIA BRASILEIRA

Publicado em Por Mayka
Compartilhar:

Por Mayka Wogue / canallinguasolta.com
18 de agosto de 2026

​O Brasil acorda hoje com o coração apertado e em silêncio. Na madrugada desta terça-feira, 18 de agosto de 2026, a teledramaturgia e o cinema nacional se despediram de um de seus pilares mais fundamentais: a atriz Laura Cardoso faleceu aos 98 anos. A notícia foi confirmada pela família através das redes sociais oficiais da artista. A poucas semanas de completar 99 anos, a veterana deixa um vazio irreparavel, mas também um legado colossal construído ao longo de mais de oito décadas dedicadas à arte.
​Laura não era apenas uma atriz; era a encarnação viva da história da comunicação brasileira. Do rádio nos anos 1940 à consolidação da televisão e às grandes produções do cinema, ela atravessou gerações, moldou a identidade cultural do país e deu alma a figuras inesquecíveis que habitam a memória afetiva de todos os brasileiros.
​Nota da Direção: A Dor da Despedida
A partida desta gigante acerta em cheio o coração de quem vive e respira a comunicação. Como jornalista e diretora deste portal, recebi a notícia de sua passagem com uma profunda e devastadora tristeza. Foi entre lágrimas, tomadas por uma saudade antecipada de sua presença viva nas telas e palcos, que me pus a redigir esta singela homenagem. Escrever sobre a Mestra Laura Cardoso neste momento não é apenas um dever de ofício jornalístico, mas um ato de amor e reverência de quem sempre se inspirou em sua entrega e grandeza.
Das Ondas do Rádio ao Pioneirismo na TV
Nascida em São Paulo em 13 de setembro de 1927, Laurinda de Jesus Cardoso Baleroni iniciou sua trajetória profissional ainda na adolescência, aos 15 anos, nas rádio-novelas da Rádio Tupi. Quando a televisão pisou no Brasil, lá estava ela: estreou nas telinhas em 1952 e participou ativamente da era de ouro do TV de Vanguarda e do TFC (Teatro de Comédia).
​Sua entrega em cena abriu caminhos para todas as gerações de atores que vieram a seguir. Laura ensinou o país a ver novela e a respeitar a profissão de ator.
​A Rainha das Telinhas: Personagens Antológicas
Com mais de 100 trabalhos acumulados na televisão, Laura Cardoso transitou com maestria entre o drama profundo e o humor refinado. É impossível repassar a história da TV Globo sem esbarrar em suas composições:
​Isaura em Mulheres de Areia (1993): A mãe dividida pelo amor injusto e pela manipulação das filhas gêmeas, Ruth e Raquel, em uma atuação dolorosa e irretocável.
​Guiomar em A Viagem (1994): Mostrou sua força dramática ao dar vida à mulher atormentada pela influência espiritual do vilão Alexandre.
Soraya em Salsa e Merengue (1996): Uma vilã cômica extraordinária que imortalizou no vocabulário popular o bordão “Gente fina é outra coisa”.
Carmem em Chocolate com Pimenta (2003): A matriarca caipira, avó de Ana Francisca, que personificava a sabedoria e o acolhimento do interior.
​Laksmi Ananda em Caminho das Índias (2009): A rigorosa matriarca indiana que equilibrava tradições rígidas com momentos de pura comicidade.
Dorotéia em Gabriela (2012): A beata moralista de Ilhéus, dona do memorável brado “Jesus, Maria, José!”.
Caetana em O Outro Lado do Paraíso (2017): A dona de bordel irônica e humana, que roubou a cena na reta final de sua trajetória em folhetins.
A Força do Olhar no Cinema Nacional
Se na televisão Laura era a soberana do cotidiano, no cinema ela se revelou uma gigante do minimalismo e da contenção dramática. Participou de obras históricas desde a década de 1960, como King Kong no Asfalto (1966) e o clássico do Cinema Novo Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha.
​Na fase da Retomada do cinema brasileiro, entregou dois de seus papéis mais aclamados:
Através da Janela (2000): Dirigido por Tata Amaral, o longa é apontado por críticos como o ápice de sua carreira nas telonas. Na pele de Selma, uma mãe cuja proteção maternal se transforma em uma espiral obsessiva e trágica, Laura deu uma verdadeira aula de interpretação pautada por silêncios e olhares, sendo consagrada com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Recife.
​Copacabana (2001): Interpretando a inusitada idosa DJ Selma, sob a direção de Carla Camurati, levou o prestigiado Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro como Melhor Atriz Coadjuvante.
​Comédias e participações marcantes: Demonstrou sua versatilidade em produções populares como A Casa da Mãe Joana (2008), de Hugo Carvana, no papel da divertida Herly; no sucesso Muita Calma Nessa Hora (2010); e em O Filme da Minha Vida (2017), dirigido por Selton Mello.
Prêmios e Reconhecimento da Nação

O talento inquestionável de Laura Cardoso acumulou as mais altas honrarias das artes cênicas do país:
​Ordem do Mérito Cultural (2006): Condecorada pelo Governo Federal em grau máximo pela imensurável contribuição à cultura brasileira.
​Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro: Vencedora na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Copacabana, 2001 e O Outro Lado da Rua, 2005) e homenageada pelo conjunto da obra.
​Prêmios APCA, Shell e Troféu Imprensa: Múltiplas vitórias ao longo de cinco décadas de excelência e dedicação contínua no teatro e na televisão.
Troféu Oscarito (2023): Consagrada no Festival de Cinema de Gramado pela totalidade de sua contribuição ao cinema nacional.
​O Legado Eterno
Laura Cardoso parte deixando uma lição permanente sobre o amor ao ofício. Atriz até o último suspiro, ela nunca encarou a atuação apenas como trabalho, mas como sua própria razão de existir. Numa entrevista marcante, disse certa vez que o palco e as câmeras eram onde ela se sentia viva de verdade.
​Nós, do portal canallinguasolta.com, nos curvamos diante da história dessa mulher gigante. O Brasil perde sua atriz mais pura, mas ganha uma estrela eterna no panteão da nossa cultura.
​Obrigado por tudo, Mestra Laura Cardoso. Sua arte continuará viva em cada cena, em cada reprise e na memória de cada brasileiro.