
Por [Mayka Wogue/Autora]
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é hoje o rosto onipresente nos feriados nacionais, nas medalhas cívicas e nas galerias de heróis da pátria. Contudo, se voltarmos os ponteiros do relógio para o Brasil Imperial, encontraremos um homem cujo nome foi apagado do mapa e cuja história foi relegada ao ostracismo. Como um “pária” da Inconfidência Mineira se tornou o ícone máximo da República Brasileira? A resposta não reside na biografia do alferes, mas na necessidade de legitimidade do novo regime após o Golpe de 1889.
A República em busca de um santo
Quando a República foi proclamada, os novos detentores do poder enfrentaram um vácuo de identidade. O Império possuía seus símbolos e figuras centrais; a República, ainda incipiente, precisava de um marco zero, um herói que servisse de contraponto à autoridade monárquica.
Tiradentes foi o candidato perfeito. Executado pela Coroa um século antes por um movimento que não buscava a independência nacional, mas sim os interesses de uma elite descontente com a carga tributária, ele foi o “bode expiatório” ideal.
A fabricação do mártir: A estética do sagrado
Para transformar o alferes esquecido em símbolo nacional, o Estado republicano operou uma “maquiagem histórica”. Encomendaram-se obras que conferiram a Tiradentes uma estética intencionalmente inspirada na imagem de Cristo. O homem comum de cabelos curtos, de barba e cabeça raspada no momento da execução, esse era o costume na época, foi substituído pela figura de barbas e cabelos longos, em poses de sofrimento estoico.
Em um país majoritariamente analfabeto e profundamente católico, a propaganda deu um xeque-mate. Ao associar a imagem do inconfidente à iconografia cristã, a República criou não apenas um herói, mas um mito religioso. Foi um golpe de mestre: para quem seguia a Igreja, a semelhança era a prova de que aquele era o “escolhido” para libertar a nação.
A fábrica de ídolos: Um modelo de negócio político
O que ocorreu em 1889 não foi um evento isolado; foi o protótipo de uma tecnologia política que utilizamos até hoje. A criação de “santos laicos” continua sendo a ferramenta mais eficiente para manipular o imaginário coletivo.
A suspensão da crítica: Quando um político ou figura pública é alçado à categoria de “herói” ou “mártir”, o debate racional é substituído pela devoção. Questionar seus atos, então, deixa de ser uma divergência política e passa a ser visto como “heresia”.
A religião como língua nativa: A política contemporânea se apropria dos arquétipos religiosos — a redenção, o sacrifício do justo pelos pecadores, a batalha espiritual — porque essa é a linguagem que a população mais rapidamente assimila.
O salvador como atalho: Em tempos de crise e polarização, o cidadão busca figuras que prometam soluções simples. O “herói” é o atalho emocional que substitui a complexidade de entender processos sociais reais.
Reconhecer que Tiradentes é uma construção não diminui a importância de debater nossa história, mas exige um olhar cético sobre o presente. Se o Brasil continua a eleger “salvadores” baseados em auras de santidade e retórica de sacrifício, é porque nossa cultura educacional ainda prefere o “culto aos grandes homens” à compreensão dos processos sociais.
O feriado de 21 de abril não celebra apenas um homem; ele celebra o momento em que aprendemos que, para governar a alma de um povo, não bastam fatos. É preciso, antes de tudo, inventar deuses — e, pelo visto, a fábrica de ídolos nunca fechou as portas.
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