
Por: Mayka Wogue / Canal Língua Solta 20 de maio de 2026
Na política brasileira, a hipocrisia costuma ser proporcional ao volume dos gritos nas redes sociais. Quem não se lembra do peito estufado e do tom categórico de Flávio Bolsonaro ao bradar que a cinebiografia de seu pai, intitulada “Dark Horse”, não tinha “um único centavo de dinheiro público”? Pois bem. Ou o clã sofre de uma amnésia coletiva fulminante ou o conceito de “centavo” deles foi atualizado para a casa dos milhões.
A contabilidade da pureza ideológica começou a ruir quando os órgãos de controle tropeçaram em uma “bagatela” de ao menos R$ 5,3 milhões em emendas parlamentares federais e estaduais irrigando o ecossistema da produção. Mas calma, o enredo de bastidores é ainda mais audacioso e envolve engenharia financeira de dar inveja a roteirista de Hollywood.
A Mágica do “Dinheiro Carimbado” (Mas Nem Tanto)
A defesa dos parlamentares patriotas — incluindo o próprio roteirista e produtor executivo do filme, Mário Frias, que carimbou R$ 2 milhões para o bolo — jura de pés juntos que a dinheirama pública foi para “projetos culturais e educativos” paralelos das ONGs envolvidas. É a velha tática da malandragem corporativa: o dinheiro público entra por uma porta para pagar o aluguel, a luz e a folha de pagamento das entidades (como o Instituto Conhecer Brasil e a ANC), liberando o dinheiro privado da outra ponta para filmar a epopeia do “mito”. O erário pode não ter comprado a claquete, mas pagou o almoço de quem a segura. Desvio indireto de finalidade? O STF e o TCU acham que sim.
E para quem achava que R$ 5 milhões era muito, a torneira abriu de vez em São Paulo. A dona da produtora do filme, Karina Ferreira da Gama, conseguiu a proeza de abocanhar um contrato de R$ 138 milhões com a prefeitura paulistana para sua ONG instalar Wi-Fi na periferia. Uma coincidência maravilhosa. Uma estrutura privada que fatura centenas de milhões do Estado numa ponta ganha o oxigênio necessário para brincar de fazer cinema ideológico na outra.
R$ 66 Milhões Para Ninguém Ver?
A conta simplesmente desafia qualquer lógica de mercado. Somando as emendas com o aporte internacional de 12 milhões de dólares (mais de R$ 60 milhões de reais) do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, estamos falando de uma produção que custa cerca de R$ 66 milhões.
Para se ter uma ideia, isso é o orçamento de uma superprodução internacional. E tudo isso para um filme que, vejam só, não vai para os cinemas tradicionais e nem para os grandes streamings nacionais como Netflix ou Prime Video. Quem gasta 66 milhões de reais em um produto sem mercado comercial evidente? A resposta é simples: quem não está buscando lucro financeiro, mas sim propaganda e blindagem política.
A Conexão Exterior e o Sumiço dos Centavos
Mas o verdadeiro cheiro de queimado exala da rota internacional do dinheiro. O roteiro do duto financeiro inclui o envio de recursos para fundos no exterior ligados a um irmão foragido da justiça, para só depois retornar ao Brasil. A pergunta que o COAF e a Polícia Federal estão fazendo — e que nós repetimos em bom som — é: realmente voltou tudo?
A remessa internacional para contas de parentes foragidos é o primeiro capítulo do manual de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Serve para fragmentar o rastro, esconder os verdadeiros doadores (ou lobistas) e garantir que uma parte substancial fique bem guardada longe dos tribunais brasileiros.
Enquanto isso, a produtora solta a pérola de que “90% do filme já foi pago”. Como assim? Com um oceano de dinheiro desses circulando, por que a contabilidade ainda opera com pendências e contratos de gaveta? A suspeita óbvia de inflação de custos e emissão de notas fiscais frias de “consultoria” paira sobre o set de filmagens. O filme parece funcionar menos como obra de arte e mais como um gigantesco aspirador de dinheiro.
O Teatro Acabou
O Canal Língua Solta não tem partido, mas tem memória e faro para o cinismo. Assistir a políticos que se elegeram demonizando o uso de verba pública na cultura (a eterna ladra da “Lei Rouanet”) operando um esquema subterrâneo de emendas Pix e contratos municipais bilionários é patético.
Sob a batuta do ministro Flávio Dino no STF, a teia de CNPJs está sendo desfiada. A narrativa do filme “100% privado” virou poeira. O que temos diante de nós é o velho e conhecido uso da máquina pública para alimentar interesses privados e familiares.
Para quem bradava “nem um centavo”, o silêncio agora é de ouro — ou melhor, de dólares em contas nas Bahamas ou no Texas. Numa desculpa pra lá de capenga e esfarrapada o senador disse que apresentará uma prestação de contas em 30 dias… Parece que vai demorar mais que as “72 horas” que não se passaram em 4 anos. Nós continuaremos cobrando as respostas, doa a quem doer.
O Canal Língua Solta mantém suas páginas abertas para que os citados tentem explicar o inexplicável.
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