A Ditadura dos Likes Versus a Dignidade do Ofício: Por Que Hugo Gross Está Coberto de Razão

Publicado em Por Mayka
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Por Mayka Wogue / canallinguasolta A escalação do influenciador Juliano Floss para Paraíso Perdido, a próxima novela do Globoplay, acendeu um debate que há muito tempo sufoca a classe artística brasileira. Ao criticar abertamente a decisão e apontar a ausência de um registro profissional (DRT) por parte do criador de conteúdo, o presidente do Sated-RJ, Hugo Gross, não está apenas cumprindo uma formalidade burocrática; ele está assumindo a linha de frente na defesa da dignidade de uma profissão histórica.
​A fala de Gross é cirúrgica e expõe a ferida aberta do mercado audiovisual contemporâneo: fama nas redes sociais não é sinônimo de talento cênico, muito menos de formação.
O Declínio do Mérito e o Vilipêndio da Arte
​O sentimento de revolta de Gross ecoa a frustração de quem realmente construiu a história da dramaturgia nacional. A escritora, atriz, diretora e cineasta Mayka Wogue, profissional com 37 anos de sólida experiência na bagagem, traz uma reflexão devastadora sobre o atual cenário. Mesmo após quase quatro décadas de carreira, Mayka confessa que ainda não se sente totalmente segura ao interpretar — uma prova cabal de que a atuação é um eterno aprendizado que exige estudo sério, estofo e preparo contínuo.
​O contraste com a realidade atual, segundo a cineasta, é vergonhoso:
​”Hoje em dia basta ter corpinho, carinha, bundinha e um punhado de seguidores idiotas, para fazer novela, ou pior, vilipendiar os palcos. São os famosos influenciadores especialistas de coisa nenhuma, para um público de mentalidade medíocre e sem matéria prima para pensar”, dispara Mayka Wogue.
​A análise da veterana expõe o abismo que separa a criação de vídeos curtos de 15 segundos da complexidade de construir um personagem para uma obra de fôlego. Atuar exige técnica, controle de corpo, voz e resiliência psicológica. Quando uma emissora do porte da Globo opta por colocar um influenciador em um papel de destaque sem sequer consultar o sindicato, ela envia uma mensagem humilhante para milhares de estudantes de artes cênicas e profissionais experientes: seu esforço, seu suor e suas décadas de dedicação valem menos do que um contador de seguidores.
O Contraexemplo Ético: A Trajetória de Grazi Massafera
​Se a indústria hoje busca atalhos fáceis nos algoritmos, o próprio passado da televisão brasileira oferece a antítese perfeita desse fenômeno na figura de Grazi Massafera. Vinda de um reality show e sob o pesado estigma da “fama instantânea”, Grazi tomou um rumo que deveria servir de cartilha para qualquer um que deseje migrar para a atuação: o caminho do respeito ao ofício.
​Em vez de se acomodar na visibilidade efêmera ou exigir papéis de destaque baseados apenas em sua enorme popularidade, Grazi recuou estrategicamente para os bastidores. Foi estudar teatro e artes cênicas de forma obstinada. Mergulhou em oficinas, submeteu-se ao erro, ao aprendizado e à técnica profunda.
​O resultado não veio do dia para a noite, mas através de uma construção artística sólida que calou os céticos, culminando em atuações viscerais (como em Verdades Secretas, que lhe rendeu uma indicação ao Emmy Internacional). O dado mais revelador de sua postura ética é que, mesmo esbanjando talento e aclamação pública, Grazi confidenciou recentemente que só há pouco tempo sentiu-se genuinamente segura para se autodenominar atriz.
​Há uma distância abissal entre a humildade de uma artista do calibre de Grazi Massafera — que entende a grandiosidade da profissão e exige de si mesma o preparo antes do rótulo — e a audácia da era dos likes, onde o espaço nobres da dramaturgia é entregue a quem nunca pisou em um laboratório de teatro.
​As Consequências Práticas da “Fórmula de Engajamento”
​A busca obsessiva pela audiência jovem e pelo engajamento digital tem gerado um efeito colateral nítido nas produções recentes: a queda vertiginosa na qualidade técnica da atuação. O carisma de uma tela de celular raramente se traduz bem em um estúdio profissional ou na densidade de um palco, onde a dinâmica exige um rigor que o universo dos algoritmos desconhece.
​Desvalorização da Categoria: A mensagem implícita é que qualquer pessoa pode exercer a profissão, bastando ser esteticamente padrão e ter apelo na internet.
​Fechamento de Portas: Atores formados, veteranos e jovens talentos teatrais perdem espaço em testes que sequer chegam a acontecer, pois as vagas já são reservadas para quem “entrega números”.
​Precarização e Ofensa à Classe: Como bem pontuado por Mayka Wogue, a banalização do acesso a esses espaços de destaque é um vilipêndio aos palcos e à tradição artística.

Apoio Incondicional à Fiscalização
​A cobrança do Sated-RJ, o desabafo de veteranas como Mayka Wogue e o exemplo de dedicação de Grazi Massafera convergem para um único ponto: o direito de mudar de carreira e ocupar novos espaços é legítimo, desde que se cumpra o caminho do aprendizado, do respeito e da regularização. O que se repudia e se combate é o privilégio do “atalho dos likes”.
​Hugo Gross cumpre o papel fundamental de lembrar à maior emissora do país que a arte não é uma extensão do Instagram. O audiovisual e o teatro brasileiro se consolidaram como potências mundiais graças ao talento de profissionais que dedicaram suas vidas ao ofício. Trocar a excelência artística pela conveniência do algoritmo é um erro estratégico crasso, que empobrece a nossa cultura e insulta quem faz da atuação a sua vida. O sindicato está coberto de razão: o registro profissional existe para ser respeitado, e a arte merece ser protegida de quem só tem números a oferecer.