
Por: Mayka Wogue / Canal Língua Solta Dizem que carregar uma “alma antiga” desde a infância é um privilégio, mas o tempo se encarrega de nos mostrar que isso também cobra um preço alto. Ao longo de quase 37 anos de vida artística e pública, sempre me percebi como uma “jovem velha”. Desde menina, minhas amizades mais profundas e meus diálogos mais ricos eram com pessoas muito mais velhas. Essa convivência moldou quem eu sou, impulsionou meu desenvolvimento intelectual e me deu a base para caminhar entre palcos, estúdios, oficinas e sets de filmagem.
Hoje, aos 46 anos, olho para trás e sinto o peso dessa escolha cronológica: raros são os amigos que restaram daquela época de infância e juventude. O relógio biológico não perdoa, e a saudade vira uma constante.
Nessas minhas andanças pelo meio artístico, tive a honra de cruzar caminhos com figuras inesquecíveis. E uma das mais marcantes, sem dúvida, foi Luiz Carlos Tourinho.
Um gigante de um metro e cinquenta (e meio!)
Tourinho era um homem de pequenina estatura. Ele fazia questão de frisar: “Um metro e cinquenta e meio!” — aquele meio centímetro era vital para o seu humor. Mas se o tamanho era discreto, o talento e a generosidade nos palcos e estúdios eram gigantescos. Dono de uma expressão corporal fantástica, fruto de seu passado como ginasta e de sua formação no lendário Teatro Tablado, ele brilhava onde quer que estivesse, fosse como o impagável Franco do seriado Sob Nova Direção ou como o Edilberto de Suave Veneno.
Nossa convivência foi curta, interrompida de forma devastadora. No dia 21 de janeiro de 2008, em Niterói (RJ), um aneurisma cerebral calou a sua genialidade aos 43 anos de idade.
Naquele momento, o Brasil inteiro entrou em choque. E quem trabalha com comunicação e arte se viu diante de uma dúvida angustiante: Tourinho estava no ar na novela Desejo Proibido, da TV Globo, interpretando o carismático Nezinho. Como a direção e os autores resolveriam a ausência repentina de um personagem tão querido? Ele não podia simplesmente desaparecer no ar.
Quando a dor real vira poesia na ficção
O que se viu a seguir foi um dos momentos mais lindos, dignos e místicos da história da teledramaturgia brasileira. Em vez de uma saída burocrática, o autor Walther Negrão, a direção e o elenco transformaram o luto real em arte pura.
Como o Nezinho era o beato da fictícia cidade de Passaperto, a trama deu a ele um destino poético: o personagem não morreu, ele foi arrebatado. Em uma cena de sensibilidade ímpar, Nezinho tem uma visão celestial, ouve o chamado de um anjo e caminha em direção a uma luz intensa, deixando para trás apenas a sua inseparável sacola e o velho colchão de palha. Quando os moradores encontram o objeto na igreja, entendem que ele partiu para uma viagem sagrada.
A emoção gravada no rosto dos atores naquela semana não era encenação; era o adeus real de uma equipe despedaçada, mas que conseguiu eternizar o companheiro com a dignidade que ele merecia.
Fica com vocês a lembrança e o meu aplauso eterno ao pequeno gigante, Luiz Carlos Tourinho.
Assista abaixo ao emocionante momento da despedida de Nezinho em Desejo Proibido:
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