
Por: Mayka Wogue / Canal Língua Solta
Se o cinema é a arte de traduzir a realidade através de lentes dramáticas, a cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro, Dark Horse, parece ter confundido o gênero dramático com a comédia pastelão. O recente vazamento de uma cena dos bastidores do longa não apenas incendiou as redes sociais, mas entregou de bandeja ao público brasileiro uma representação que beira o inacreditável: o ator americano Jim Caviezel — outrora o imponente Jesus de Mel Gibson — encenando o fatídico “atentado” de 2018 em Juiz de Fora.
Para quem sempre enxergou aquele episódio como uma das maiores e mais convenientes encenações da história política recente, assistir ao take vazado é uma experiência quase catártica. O que a produção pretendia que fosse um momento de puro heroísmo e tragédia nacional acabou se transformando na confissão estética de uma farsa.
Montado nos ombros de figurantes que simulam a multidão, perspicaz, Caviezel entrega uma performance que, de tão exagerada, flerta abertamente com o ridículo. Ao receber o suposto “golpe”, o movimento corporal do ator evoca mais um jogador de futebol simulando uma falta escandalosa na grande área do que o realismo de um ataque real.
É a representação perfeita do “atentado” combinado Uma coreografia canastrona, um ensaio mal feito que precisava de muita boa vontade do público para colar.
O veredito da internet foi imediato e cirúrgico: a atuação é fiel à realidade exatamente por parecer um grande teatro armado. Uma encenação burlesca e dantesca para um evento que mudou os rumos do país com base no puro melodrama de palanque.
Pílulas Mágicas e Misticismo de Quintal
Infelizmente, o script passa longe de ter a coragem de mostrar como a engenharia dessa “fakeada” foi orquestrada nos bastidores reais. Nada disso aparece no roteiro. Em compensação, o público será castigado com longas e cansativas sequências dos blasfemadores da corte fazendo suas peripécias para sustentar o mito.
Trechos vazados indicam que a sequência hospitalar abandona qualquer compromisso com a medicina ou com os fatos para abraçar um misticismo barato de quintal. Aparece em cena a personagem “Dolores” (uma caricatura nada sutil e escrachada da ex-ministra Damares Alves) distribuindo o que o roteiro chama de “pílulas mágicas”, enquanto apoiadores choram nos corredores celebrando o líder que “voltou dos mortos”. O viés messiânico é tão cafona quanto a própria facada cenográfica.
A Engrenagem de Milhões (e de Investigações)
No entanto, o verdadeiro espetáculo de Dark Horse não está na frente das câmeras, mas por trás delas. A repercussão do vídeo ganhou força avassaladora após a revelação da crise de financiamento da obra. Áudios e relatórios apontam negociações milionárias do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro para bancar a produção. O caso, previsivelmente, já virou alvo de investigações por suspeita de esquemas ilícitos e lavagem de dinheiro.
É aí que o deboche ganha contornos de indignação legítima. Diante de cifras astronômicas e transações sob a mira da Justiça, a precariedade técnica e a cafonice estética da cena vazada tornam-se uma ofensa ao bom gosto. Gastar milhões para produzir uma simulação que qualquer diretor de teatro amador saberia que ficou falsa é, no mínimo, trágico.

Destino Traçado: O Framboesa de Ouro nos Espera
Com estreia prevista para 11 de setembro de 2026, (dia desastroso como 2001) Dark Horse dificilmente alcançará o tapete vermelho de Cannes ou a consideração séria da crítica internacional. O filme já nasce com o selo de produção panfletária que, na tentativa de santificar seu protagonista, acaba por escancarar o ridículo da sua narrativa original.
Se há uma certeza nessa grande mentira encenada, é que o cinema ultra-ideológico de Hollywood costuma ter um destino muito específico: a lista de indicados ao Framboesa de Ouro (Golden Raspberry Awards). A atuação “perfeita” de Caviezel em reproduzir a farsa de um ataque combinado tem grandes chances de garantir a estatueta de pior ator do ano.
Resta-nos rir do burlesco na tela, enquanto as autoridades investigam de onde saiu o dinheiro para pagar essa comédia involuntária de milhões.
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